Categoria: Direitos Humanos

  • Lésbicas cobram saúde integral, trabalho digno e fim de violências

    Lésbicas cobram saúde integral, trabalho digno e fim de violências

    Praticamente oito em cada dez mulheres lésbicas enfrentam diversos tipos de violência cotidianamente, como mostra o LesboCenso Nacional: Mapeamento de Vivências Lésbicas no Brasil, realizado pela Liga Brasileira de Lésbicas e pela Coturno de Vênus (Associação Lésbica Feminista de Brasília) e divulgado ainda em 2022. A lesbofobia ocupa a segunda posição em registros de violências, e o assédio moral e o sexual estão entre as formas mais recorrentes, de acordo com o levantamento.

    Para marcar o combate à lesbofobia (preconceito, ódio ou discriminação contra mulheres que se relacionam com outras mulheres), o Dia Nacional do Orgulho Lésbico é lembrado nesta quarta-feira (19) no Brasil. O 19 de agosto simboliza, também, a luta pela visibilidade desse público e por avanços de direitos.

    Para analisar as principais reivindicações, avanços e desafios dessa agenda social e econômica, a Agência Brasil entrevistou a assistente social Michele Seixas, coordenadora política nacional na Articulação Brasileira de Lésbicas (ABL).

    Entre as prioridades listadas pela ativista social, está a busca por uma saúde integral de qualidade e por oportunidades para lésbicas no mercado de trabalho.

    Saúde

    A militante defende o atendimento qualificado no Sistema único de Saúde (SUS), para atender às especificidades de todos os corpos lésbicos, com profissionais de saúde capacitados. “A saúde é um gargalo para a população lésbica. Deparamo-nos com uma saúde que vem sendo invisibilizada e violada há muitos anos para nós.”


    Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Michele Seixas
, Assistente Social,
 Especialista em Direitos Humanos, Gênero, e Sexualidade (DIHS/ENSP/FIOCRUZ) e Coordenadora Política Nacional na Articulação Brasileira de Lésbicas - ABL. Foto: Michele Seixas/ Arquivo Pessoal
    Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Michele Seixas
, Assistente Social,
 Especialista em Direitos Humanos, Gênero, e Sexualidade (DIHS/ENSP/FIOCRUZ) e Coordenadora Política Nacional na Articulação Brasileira de Lésbicas - ABL. Foto: Michele Seixas/ Arquivo Pessoal
    A assistente social Michele Seixas é especialista em direitos humanos, gênero e sexualidade e coordenadora da Articulação Brasileira de Lésbicas (ABL) – Foto: Michele Seixas/Arquivo pessoal

    Michele Seixas lamenta que as lésbicas ainda sofram com o senso comum de preconceito e, nos atendimentos em saúde, exista um fundamentalismo religioso somado à falta de formação continuada em educação permanente em saúde.

    Apesar do despreparo existente nos serviços de saúde ressaltado por Michele, ela cita que alguns municípios brasileiros até oferecem aulas online sobre a temática, mas a participação dos profissionais de saúde é voluntária e, na maior parte das vezes, ocorre em número reduzido.

    Outro ponto exigido pelo movimento lésbico é que a entrevista clínica realizada por um profissional de saúde no início de um atendimento colete, obrigatoriamente, a informação de orientação sexual do paciente, a fim de direcionar o cuidado clínico adequado.

    “Há alguns anos, não era obrigatório marcar raça/cor, durante a anamnese. Agora é. E precisa ser obrigatório preencher o quesito orientação sexual. Isso vai determinar como será o atendimento em saúde daquela lésbica.”

    Direitos reprodutivos

    Ao falar de direitos reprodutivos, Michele conclui que a Política de Planejamento Familiar no Brasil não assiste as lésbicas. Uma das reivindicações é que elas tenham acesso à dupla maternidade por via de reprodução humana.

    “Toda mulher deve ter o direito de escolher ser ou não mãe. Mas, quando as lésbicas chegam a uma clínica da família, os próprios funcionários dizem que não sabem o que fazer conosco em pleno 2026”, critica.

    Segundo Michele, na maioria das vezes, o direito de formar uma família fica restrito àquelas que tem melhores condições econômicas.

    Assistência social

    Outro ponto crítico é a falta de reconhecimento e de cadastramento de arranjos familiares de lésbicas nos programas da Política Nacional de Assistência Social (PNAS). “Famílias lésbico-afetivas não são reconhecidas como tal. Então, estas não são contabilizadas dentro da Política de Assistência Social no Brasil”, constata a representante da Articulação Brasileira de Lésbicas (ABL).

    Mercado de trabalho

    A lesbofobia também pauta a falta de acesso a postos de trabalho dignos que poderiam combater a vulnerabilidade social e a informalidade das mulheres lésbicas.

    Michele Seixas, que também é especialista em direitos humanos, gênero e sexualidade no Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aponta que as lésbicas que adotam uma identidade que desafia os padrões de gênero e o conceito de feminilidade passam por um processo de exclusão maior.

    A rejeição à não conformidade de gênero recai com mais força nas lésbicas classificadas como desfeminilizadas (o termo abreviado é desfem).

    “Lésbicas desfems, lésbicas caminhoneiras, lésbicas que não performam a feminilidade dos colonizadores tendem a passar por um processo de exclusão do mercado de trabalho”, aponta.

    Michele relata casos de mulheres lésbicas que, para conseguir uma vaga de emprego, se ajustam para performar uma feminilidade padrão – usando maquiagem e roupas que não utilizam no dia a dia –, pois a não conformidade com esse estereótipo resulta em exclusão nos processos seletivos.

    “Ela [a mulher lésbica] vive ainda uma vida totalmente escondida no trabalho. É sempre aquela solteira que não tem ninguém, porque ela não pode dizer, simplesmente, que é sapatão, que é casada ou namora [outra mulher]. Isso ainda perpassa nos nossos cotidianos.”

    A especialista aponta a relação entre a lesbofobia e o racismo, pois a situação no ambiente de trabalho piora se essas mulheres lésbicas são negras.

    Dados

    O Brasil convive com a falta de estatísticas sobre mulheres lésbicas, o que limita a formulação de políticas públicas direcionadas à proteção de mulheres lésbicas.

    Os únicos dados nacionais de referência permanecem restritos a levantamentos independentes. A estudiosa menciona o Dossiê do Lesbocídio (com dados de 2014 a 2017) produzido pelo Núcleo de Inclusão Social (NIS), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Nós: Dissidências Feministas.

    Em nível nacional, Michele relata ainda a primeira fase do Lesbocenso, divulgado em 2022. A segunda fase do mapeamento sociodemográfico das vivências de lésbicas e sapatão do Brasil está em andamento. A iniciativa é da Coturno de Vênus (Associação Lésbica Feminista de Brasília) e da Liga Brasileira de Lésbicas (LBL).

    “Infelizmente, nós não temos dados produzidos pelo Estado sobre essas violências sobre os nossos corpos”, lamentou Michele.

    Vitórias coletivas

    Embora existam avanços, Michele contabiliza que estes decorrem de vitórias de toda a comunidade LGBTQIA+, como a adoção de filhos por casais homoafetivos e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, garantido em todo o Brasil desde 2013. Porém, não há marcos exclusivos da pauta lésbica. “Conquista só nossa? Ainda nós não tivemos essa felicidade.”

    Viver sem violência

    Casos de violências contra pessoas LGBTQIAPN+ podem ser denunciados no Disque Direitos Humanos, o Disque 100. O serviço do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) funciona diariamente, 24 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados. O atendimento é imediato.

    As denúncias de violações de direitos humanos são registradas e analisadas pela equipe do Disque 100 e, posteriormente, encaminhadas aos órgãos competentes (de proteção, defesa e responsabilização em direitos humanos). Em situações de emergência, a Polícia Militar local deve ser acionada pelo telefone 190.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Dia Nacional do Orgulho Lésbico é celebrado nesta quarta-feira

    Dia Nacional do Orgulho Lésbico é celebrado nesta quarta-feira

    O Dia Nacional do Orgulho Lésbico é celebrado nesta quarta-feira (19). A data foi instituída com o objetivo de combater a lesbofobia – o preconceito, a rejeição ou o ódio contra mulheres lésbicas –, a violência com base em orientação sexual e identidade de gênero e também pela luta para conquistar direitos.

    A iniciativa homenageia a mobilização do dia 19 de agosto de 1983, no Ferro’s Bar, no centro de São Paulo, quando mulheres lésbicas se recusaram a aceitar a discriminação e a violência dentro de um espaço e se levantaram contra a censura e a tentativa de silenciamento no local.

    Neste dia, há 43 anos, a administração do espaço proibiu a venda e circulação do boletim Chana com Chana, produzida pelo Grupo Ação Lésbica Feminista (Galf) – coletivo que existiu de 1981 a 1990.

    O chamado Levante do Ferro’s Bar tornou-se um marco da resistência lésbica brasileira por liberdade de expressão e direitos.  

    Esta foi a primeira manifestação organizada por lésbicas contra a discriminação, realizada em plena ditadura militar. Elas também reivindicaram o direito civil de existir, falar, circular e se organizar.

    Entre as protagonistas da ocupação do espaço estava a ativista brasileira Rosely Roth (1959-1990 – imagem em destaque), considerada uma das pioneiras do movimento lésbico brasileiro.

    Resistência lésbica


    Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Capa do Jornal Chana com Chana.. Foto: Chanacomchana/Divulgação
    Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Capa do Jornal Chana com Chana.. Foto: Chanacomchana/Divulgação

    A publicação Chana com Chana foi o primeiro periódico brasileiro voltado exclusivamente para o público lésbico, criado em janeiro de 1981, em São Paulo. Ao todo foram publicadas 13 edições até 1987.

    O boletim da imprensa alternativa trazia em suas páginas entrevistas e textos focados em política, artes e na luta por diretos civis de lésbicas, pela visibilidade da população LGBTQIAPN+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros/travestis, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, não-binários, o + é para outras identidades de gênero).

    Mês da Visibilidade Lésbica

    No Brasil, agosto é também chamado de Mês da Visibilidade Lésbica por ter duas datas de comemoração e marca um período de debates sobre direitos. Além do Dia Nacional do Orgulho Lésbico, há a celebração do Dia da Visibilidade Lésbica, em 29 de agosto.

    A data foi criada há 30 anos por ativistas brasileiras durante o 1º Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), ocorrido em 29 de agosto de 1996, no Rio de Janeiro.

    Símbolo do movimento lésbico

    Em janeiro de 2003, durante o III Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, ativistas lésbicas do Brasil, da América Latina e do Caribe aprovaram a incorporação de símbolos de lésbicas na tradicional bandeira arco-íris do movimento LGBT. O objetivo é promover a visibilidade à luta deste grupo pela garantia de direitos.


    Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. bandeira lésbica brasileira. Foto: Bandeira lésbica brasileira/ Divulgação
    Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. bandeira lésbica brasileira. Foto: Bandeira lésbica brasileira/ Divulgação
    Bandeira com incorporação de símbolos – Bandeira lésbica brasileira/ Divulgação

    A representatividade lésbica na bandeira é marcada por:

    • duplo espelho de Vênus: representa a atração e a união entre mulheres;
    • lábris (machado de dois gumes/dupla lâmina): usado por amazonas e simboliza a força e a independência das mulheres;
    • triângulo preto: tatuado nas prisioneiras lésbicas, pelos nazistas, nos campos de concentração;

    Como denunciar

    Caso de discriminação, violências e outros desrespeitos aos diretos de pessoas LGBTQIAPN+ devem ser denunciados no Disque Direitos Humanos, o Disque 100.

    O serviço do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) funciona diariamente, 24 horas, por dia, incluindo sábados, domingos e feriados. O atendimento é imediato e é garantido o sigilo de quem liga.

    As ligações podem ser feitas de todo o Brasil por meio de discagem direta e gratuita, de qualquer terminal telefônico fixo ou móvel. Basta discar o número 100. 

    Também é possível utilizar o Disque 100 por meio do Telegram, basta digitar “Direitoshumanosbrasil”, na busca do aplicativo.

    Qualquer cidadão pode reportar algum fato relacionado a violações de direitos humanos, da qual seja vítima ou tenha conhecimento.

    As denúncias de violações de direitos humanos são registradas e analisadas pela equipe do Disque 100 e, posteriormente, encaminhadas aos órgãos competentes (de proteção, defesa e responsabilização em direitos humanos). 

    Em situações de emergência, a Polícia militar local poderá ser acionada pelo telefone 190.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Rio de Janeiro tem a segunda maior população de rua do país

    Rio de Janeiro tem a segunda maior população de rua do país

    No Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, lembrado nesta quarta-feira (19), o estado do Rio de Janeiro chama a atenção, por reunir 35.406 pessoas registradas nessa condição no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), o segundo maior número do país. 

    Diante de um cenário de pobreza extrema, pelo rompimento de vínculos familiares e pelas dificuldades de acesso à moradia e ao trabalho, o legislativo local aprovou leis para ampliar o acolhimento, garantir direitos e criar alternativas para a autonomia.

    Em maio de 2026, o CadÚnico contabilizava 388.855 pessoas em situação de rua no Brasil. São Paulo liderava o ranking nacional, com 159.290 registros. O Rio ocupava a segunda posição, seguido por Minas Gerais, que aparecia em terceiro lugar, com 34.849.

    Legislação

    A Lei 9.302/21 instituiu a Política Estadual para a População em Situação de Rua. A norma reconhece como população em situação de rua o grupo marcado pela extrema pobreza, pela fragilização ou pelo rompimento dos vínculos familiares e pela inexistência de moradia convencional regular.

    A legislação garante acesso amplo e simplificado às políticas públicas de saúde, educação, assistência social, moradia, segurança, cultura, esporte, lazer, trabalho e renda. 

    Também prevê a implantação de uma rede de acolhimento temporário, ações de segurança alimentar, qualificação profissional, intermediação de empregos e programas habitacionais acompanhados por equipes multidisciplinares.

    A medida proíbe qualquer discriminação no atendimento em razão da condição econômica, étnico-racial ou de saúde, inclusive nos casos relacionados ao uso de álcool e outras drogas.

    Entre os municípios fluminenses, a capital lidera o ranking da população em situação de rua inscrita no CadÚnico. Veja os números:

    1. Rio de Janeiro: 22.352 pessoas;
    2. Niterói: 1.015;
    3. Duque de Caxias: 977;
    4. Nova Iguaçu: 727;
    5. Volta Redonda: 488;
    6. São Gonçalo: 484;
    7. Maricá: 471;
    8. Macaé:402;
    9. Cabo Frio: 333;
    10. Petrópolis: 305.

    Recomeço

    Uma das histórias de superação é a do escritor Leonardo Motta, que viveu nas ruas durante um ano e três meses após enfrentar duas décadas de dependência de álcool e outras drogas. Atualmente, está sóbrio há nove anos, é casado, mora na Ilha de Paquetá e tem três livros publicados.

    “O que me levou a essa situação foi a dependência química. Usei drogas durante 20 anos, entre álcool, cocaína e crack. Consegui sair das ruas quando aceitei ajuda e fui para uma instituição de tratamento, onde permaneci por sete meses.” 

    Leonardo também é autor da Revista na Calçada, publicação de poesia dedicada a dar visibilidade às experiências da população em situação de rua. Hoje, ele participará de uma atividade na Biblioteca Estadual, na Avenida Presidente Vargas, no centro, para apresentar o trabalho e promover um debate sobre a realidade das ruas.

    “O conselho que deixo para quem está nessa situação é que aceite ser ajudado. De um lado, existe alguém disposto a ajudar; do outro, é preciso que a pessoa também aceite essa ajuda.”

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Entidades publicam carta em defesa da suspensão de lives no Discord

    Entidades publicam carta em defesa da suspensão de lives no Discord

    A decisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) que suspendeu temporariamente a funcionalidade de transmissão ao vivo no aplicativo Discord foi classificada como medida equilibrada e que atende aos preceitos do ECA Digital, em abaixo-assinado divulgado nesta terça-feira (18) por um grupo de 67 entidades da sociedade civil.

    ” A medida é proporcional ao risco identificado, restringe temporariamente uma funcionalidade específica, sem bloquear a plataforma ou afetar os demais serviços e condiciona sua retomada à comprovação, pelo Discord, da capacidade de detectar crimes ocorridos em seu espaço virtual e implementar as salvaguardas necessárias”, diz o manifesto.

    “Outras diversas funcionalidades permanecem intactas, como a troca de mensagens e a integração com plataformas terceiras para a execução de atividades automatizadas do dia-a-dia de empresas”, acrescenta a manifestação.

    A sanção foi imposta pela ANPD para frear episódios de violência e de coação de menores de 18 anos de idade, como o que culminou com o suicídio de uma adolescente de 13 anos, moradora de Naviraí (MS), em 22 de julho. A interrupção da possibilidade de os usuários no Brasil transmitirem vídeos no Discord já foi efetivada pela empresa norte-americana, nesta segunda-feira (17).

    Na carta, as organizações criticam o ambiente de polarização política em torno do assunto e ponderam que a suspensão não foi uma medida isolada, mas se soma a um esforço de investigação que envolve não apenas a ANPD, mas operações da Polícia Civil em ao menos oitos estados que apuram a prática de crimes no Discord e no Telegram.

    Entre as violações, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, estariam o recrutamento de crianças e adolescentes para a prática de crueldade contra animais, ao lado da automutilação e do induzimento ao suicídio.  

    O manifesto observou que poucos dias antes da decisão sobre o Discord, a própria ANPD havia fixado prazo, até 17 de setembro, para que qualquer plataforma com mais de 1 milhão de usuários crianças ou adolescentes no Brasil publique relatórios semestrais detalhando denúncias recebidas, medidas de moderação adotadas e avaliações de risco realizadas.

    “A lei exige que a própria plataforma demonstre, de forma contínua e verificável, que está prevenindo riscos conhecidos. No caso do ‘Go Live’, isso significa que cabe ao Discord comprovar que tem meios de identificar e conter esses problemas antes de retomar a funcionalidade, não à ANPD provar o dano depois que ele acontece”, ressalta a publicação.

    Entre as entidades signatárias do documento estão a Coalizão Direitos na Rede (CDR), o Instituto Alana, o Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), a SaferNet Brasil, o Instituto Sou da Paz e a Associação de Pesquisadores e Formadores da Área de Criança e do Adolescente (NECA).

    “A alternativa encontrada pelo Brasil para atacar o problema da violência online contra crianças e adolescentes aposta em uma abordagem mais ampla de proteção, baseada na prevenção de riscos, na adoção de salvaguardas e na responsabilização dos diferentes atores do ambiente digital, em vez de concentrar a resposta apenas em restrições de acesso associadas à idade. Crianças e adolescentes do Brasil precisam ser protegidos já”, prossegue a carta das organizações da sociedade civil.

    O texto finaliza reiterando a responsabilidade do Discord em demonstrar, na prática, que é capaz de proteger seus usuários mais jovens na plataforma, e reafirma o papel da ANPD de exigir medidas reais que impeçam violação de direitos de crianças e adolescentes no ambiente digital.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Terremoto: Brasil doará 10 toneladas de arroz à Colômbia

    Terremoto: Brasil doará 10 toneladas de arroz à Colômbia

    O Brasil vai doar até 10 toneladas de arroz à Colômbia, depois de o país ser atingido por terremoto de magnitude 7,4 na escala Richter em 10 de agosto. Os grãos fazem parte do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

    De acordo com a autorização publicada no Diário Oficial da União desta terça-feira (18), os alimentos serão destinados ao país vizinho como parte de uma ação de assistência humanitária internacional.

    A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ficará responsável por operacionalizar o repasse. O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE) coordenarão a iniciativa.

    PAA

    O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) é uma política pública voltada à compra de produtos da agricultura familiar para abastecimento de instituições e ações de segurança alimentar.

    A autorização excepcional permite que alimentos adquiridos pelo programa sejam destinados à cooperação humanitária internacional.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Bets: quatro em cada dez mulheres apostam ou já apostaram online

    Bets: quatro em cada dez mulheres apostam ou já apostaram online

    Quatro em cada dez mulheres brasileiras (42%) já jogaram ou continuam jogando em plataformas de apostas online, sendo que 20% apostam atualmente (com frequências variadas) e outras 22% já apostaram, mas não apostam mais.

    Dentre 58% das mulheres que nunca apostaram, 12% são afetadas por parentes ou amigos que apostam. Somadas, mais da metade das mulheres no Brasil (54%) sente o efeito direto das bets, sendo apostadoras ou não.

    Os dados são da pesquisa Mulheres e Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias, conduzida pelo estúdio Clarice, Estratégia Latina e Instituto Ideia e divulgada nesta segunda-feira (17).

    A fundadora e diretora do estúdio Clarice, Beatriz Della Costa, explica que essa é a primeira pesquisa sobre o impacto das bets que traz a perspectiva não somente da apostadora, mas de quem é afetado por quem aposta.

    Ela enfatiza que as experiências colocadas lado a lado conseguem dar uma visão mais completa da crise:

    “O impacto das bets vai muito além da crise financeira e afeta as estruturas familiares. Essa análise mostra que é possível pensar não apenas na contenção da crise, mas na prevenção da mesma.”

    Perfil de apostadores

    O levantamento inédito mostra também que as mulheres com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos (72% das apostadoras têm filhos).

    No recorte racial, 45% das mulheres autodeclaradas pardas afirmaram que apostam ou já apostaram; 39% são brancas e 37%, mulheres pretas.

    Um dos achados da pesquisa é sobre as diferenças de gênero dos apostadores: para o apostador homem, ter filhos atenua o julgamento. Já para a apostadora, é o contrário: com filhos, ela é mais culpada e mais questionada como provedora.

    Para a cientista social Beatriz Della Costa, esse é um sintoma dos papéis sociais historicamente atribuídos a homens e mulheres. 

    “O homem é visto como alguém que está tentando sustentar a família – esse é um papel honrável que, em alguma medida, o redime. A mulher, por outro lado, sofre uma cobrança social muito maior enquanto gestora do lar: o papel fundamental atribuído a ela pela sociedade é o do cuidado, e por isso ela sofre um julgamento muito maior quando não cumpre a função designada.”

    Os relatos das apostadoras confirmam a dinâmica para jogar: elas apostam sozinhas e escondem o jogo dos parentes por vergonha.

    O segredo gera culpa ao mesmo tempo em que coloca em risco as relações mais fundamentais. Entre as apostadoras, 30% delas costumam jogar mais à noite ou de madrugada do que em qualquer outro momento do dia, contra 20% homens.

    Entre os entrevistados, 15% dos brasileiros acreditam que alguém que mora com eles faz apostas online, mas não conta a ninguém e faz dívidas escondidas. 

    Motivação

    A pesquisa revela que, para a mulher, a aposta nasce menos como lazer ou entretenimento e mais como uma estratégia de administração financeira e sobrevivência doméstica para cobrir despesas essenciais, por exemplo pagar boletos, comprar comida ou itens para os filhos.

    A especialista em mulheres e poder explica que as apostadoras não estão correndo atrás de uma vida luxuosa.

    “Elas querem viver com um pouco mais de dignidade: para além das necessidades imediatas, querem levar os filhos ao cinema, pedir um delivery e pagar o material escolar sem se preocupar com a conta de luz no final do mês.”

    As apostas online se infiltraram nos lares brasileiros com a fama de renda fácil. Segundo Della Costa, as plataformas atuam em duas frentes. Primeiramente, tentam seduzir pela promessa de vida digna – a conta paga, a mesa farta, o presente para os  filhos. Ao mesmo tempo que as apostas se associam ao dever do cuidado, papel historicamente atribuído às mulheres.

    “O desejo de cuidar da família e prover para os filhos é o mais explorado pelas [casas de] apostas.” 


     Beatriz Della Costa, fundadora e diretora da CLARICE, cientista social e especialista em mulheres e poder. Foto:  Mariana Leitão
     Beatriz Della Costa, fundadora e diretora da CLARICE, cientista social e especialista em mulheres e poder. Foto:  Mariana Leitão
    Cientista social Beatriz Della Costa é especialista em mulheres e poder e fundadora do estúdio Clarice – Mariana Leitão/divulgação/proibida reprodução

    Crianças e adolescentes

    Por lei, as apostas são proibidas para menores de 18 anos no Brasil. Mas, as apostas chegam a crianças e adolescentes por influência de fora de casa — amigos, escola, redes sociais — ou, em alguns casos, pelas próprias mães, para quem jogar junto pode ser vivido como companhia e vigilância.

    Os dados da pesquisa identificaram que burlar a regra dos 18 anos passa, quase sempre, pelo uso do Cadastro de Pessoa Física (CPF) de um adulto da casa, com ou sem consentimento.

    Ilusão 

    O jogo é encarado pela apostadora como estratégia de investimento. Em alguns casos, o envolvimento é tão intenso que a aposta passa a ser encarada como trabalho. 

    O estudo descobriu que as casas de apostas online conseguiram incutir a ideia de que existem macetes e estratégias para vencer jogos de azar, inclusive em cassinos online.

    Essa ideia falsa influencia a percepção das apostadoras, pois 25% das mulheres (e cerca de 40% das apostadoras frequentes) acreditam que é preciso “habilidade ou expertise” para vencer as apostas. Por esse motivo, elas buscam se especializar. 

    A diretora do estúdio Clarice defende que, para desmistificar essa ilusão é preciso restringir a publicidade sobre as apostas online.

    “Cursos, coaches e conteúdos com dicas e macetes precisam ser veementemente banidos. As restrições aos jogos de cassino online, que ainda são permeados pela ilusão da ‘habilidade’ e que concentram a maior parte das apostadoras, também devem ser consideradas”, diz Della Costa.

    Impacto social

    Para 67% das entrevistadas, as apostas estão acabando com as famílias brasileiras (ante 59% dos homens). 

    Além da perda financeira, eles percebem que os jogos levam para dentro de casa brigas, agressões, mentiras e o adoecimento mental: 23% dos brasileiros presenciaram ou conhecem alguma situação em que as apostas contribuíram para casos de violência dentro das famílias.  

    Nas entrevistas, as mulheres impactadas por um familiar apostador são as que mais percebem a violência. Falam de comportamentos agressivos, xingamentos e perda de controle quando os companheiros perdem.

    Outra parte diz ter filhos endividados com agiotas e a sensação de insegurança que passa a acompanhar a família. Entre os efeitos declarados pelas impactadas na própria vida ou na família:

    • 24% relatam conflitos familiares;
    • 24% perda de confiança;
    • 21% desgaste emocional;
    • 12% mudança na qualidade de vida.

    Entre os impactados, 40% acreditam que as apostas online afetam a capacidade da pessoa viciada em relação a trabalhar ou gerar renda (36% entre as mulheres e 45% entre os homens).

    Empréstimo 

    Quando questionadas se alguma vez pegou dinheiro emprestado para fazer apostas online, 7% das mulheres apostadoras declaram ter pegado dinheiro emprestado com agiotas.

    E 8% das mulheres impactadas declaram que elas próprias ou alguém próximo precisou fazer empréstimo com agiotas, como os filhos endividados, o que aumentou a sensação de insegurança nos lares das brasileiras.  

    Perfil dos jogos 

    Entre as apostadoras, cerca de metade (49%) jogam em cassinos online (como roleta, Tigrinho e caça-níquel) e 29% em jogos de sorte instantânea (crash games como Aviator ou raspadinhas), 26% em bets de futebol, com atrativos pelo resultado e ciclo imediatos de ganho ou perda.

    Apresentação das apostas

    O estudo identifica que as plataformas capturam o imaginário feminino por três meios:

    1. redes de confiança como canal de vendas – a porta de entrada costuma ser o vínculo de confiança, como um amigo ou familiar que mandou o link de apostas, divulgam cadastros e sites de apostas em seu círculo pessoal em troca de bônus nas plataformas. Estas recompensam quem indica não apenas pelo cadastro, mas também com comissões sobre as perdas de quem entra pelo link enviado.
    2. influenciadores locais em quem se confia, como pessoas do bairro, da igreja ou da cidade, com número menor de seguidores, mas credibilidade alta, atribuída pela proximidade e pela identificação.
    3. grandes influenciadores e publicidade massiva;

    A pesquisa apurou que 72% das mulheres acreditam que a publicidade das apostas contribui para que as pessoas apostem mais do que deveriam.

    Entre as entrevistadas, 79% das mulheres afirmam que as redes sociais passaram a mostrar mais conteúdos de apostas depois de seu primeiro acesso às plataformas. Quem aposta com mais frequência percebe mais (82,2%) do que quem aposta raramente (73,2%).

    A percepção das entrevistadas é de que quanto mais alta é a classe social, maior a percepção do aumento de conteúdo de apostas.

    Conter o avanço

    O Brasil tem forte apoio à proibição das apostas. As mulheres são as que mais cobram uma solução para o problema: 62% defendem a proibição dos jogos online no país ante 50% dos homens. A posição que se mantém majoritária independente do viés político.

    “Isso sinaliza aos políticos que existe apetite na opinião pública por medidas de combate às bets”, diz a coordenadora do estudo

    A conclusão da pesquisa traz diretrizes em três eixos de combate às bets: 

    • fortalecer mecanismos da saúde pública que cuidam de pessoas que apostam e de familiares impactados;
    • prevenir que mais pessoas comecem a apostar, investindo em medidas de restrições à publicidade;
    • e gradualmente, restringir as modalidades de aposta, começando com os cassinos online.

    Na opinião dos entrevistados, 45% aprovam o bloqueio do Pix em apostas para quem recebe benefícios sociais e 32% teriam interesse em um canal anônimo de apoio. Esse índice sobe para 57% entre quem aposta com frequência.

    Em relação à publicidade, 41% das mulheres concordam que  as casas de apostas online podem continuar operando no Brasil, mas devem ser proibidas de fazer propaganda. Entre os homens, o percentual é maior (47%).

    Pesquisa

    O relatório foi feito a partir de estudos qualitativos e quantitativos (para mensurar o tamanho do fenômeno em números nacionais) realizados em junho e agosto de 2026.

    As entrevistas qualitativas ouviram 60 pessoas, sobretudo mulheres de 18 a 58 anos, das classes C, D e E, residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe.

    Na enquete quantitativa, foram ouvidos 2.008 homens e mulheres em todo o país, de acordo com a distribuição da população contada no Censo demográfico de 2022 e na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2025, ambos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Discord suspende lives para atender medidas determinadas pela ANPD

    Discord suspende lives para atender medidas determinadas pela ANPD

    A empresa Discord informou nesta segunda-feira (17) que interrompeu, por tempo indeterminado, a possibilidade dos usuários transmitirem vídeos usando o aplicativo de mesmo nome.

    A suspensão preventiva da funcionalidade foi determinada pela Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), no último dia 12. A medida foi imposta para frear episódios de violência e de coação de menores de 18 anos de idade, como o que culminou com o suicídio de uma adolescente de 13 anos, moradora de Naviraí (MS), em 22 de julho.

    “Em cumprimento à determinação da ANPD, suspendemos os recursos de vídeo do Discord no Brasil”, assegurou a companhia em nota divulgada na tarde desta segunda-feira (17).

    Hoje terminava o prazo que a agência regulamentadora estabeleceu para a companhia cumprir a determinação.

    Segundo a empresa, a suspensão das transmissões ao vivo e de compartilhamentos de vídeos não afeta as comunicações por texto e áudio e outros recursos da plataforma. Além disso, a companhia afirma que está “dialogando” com representantes da ANPD em busca de uma solução que lhe permita restabelecer as transmissões de vídeo para os usuários brasileiros.

    “O vídeo é uma parte importante e muito valorizada da experiência no Discord, permitindo que nossos usuários se comuniquem e criem conexões significativas ao compartilhar experiências, jogar juntos e manter contato com amigos e familiares”, acrescentou o Discord.

    A empresa classificou a morte da adolescente de Naviraí como “um caso devastador”, resultado de uma “situação muito séria”, uma “campanha coordenada de violência extrema conduzida em múltiplas plataformas” digitais.

    Conforme a Agência Brasil noticiou, a ANPD determinou que a plataforma suspendesse preventivamente as transmissões ao vivo e os compartilhamentos de vídeos no Brasil após a Superintendência de Fiscalização identificar falhas na proteção aos usuários, principalmente de crianças e adolescentes.

    “A medida cautelar de suspensão da funcionalidade de lives foi determinada pela Superintendência de Fiscalização em função de evidências robustas de que a empresa não adotou medidas razoáveis para prevenir e mitigar riscos de acesso, exposição, recomendação ou facilitação de contato com conteúdos ou práticas que representem graves violações de direitos de crianças e adolescentes no âmbito do seu serviço”, detalhou a agência reguladora responsável por zelar pela devida proteção de dados pessoais e pela aplicação do do Estatuto Digital da Criança do Adolescente (ECA Digital).

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Em 13 anos, MG tirou 5,6 mil pessoas de trabalho análogo à escravidão

    Em 13 anos, MG tirou 5,6 mil pessoas de trabalho análogo à escravidão

    Em 13 anos, de 2013 a 2026, a Superintendência Regional do Trabalho em Minas Gerais (SRTE/MG) resgatou 5.651 pessoas em trabalho análogo ao de escravo.

    Foram fiscalizadas 1.042 empresas e 43.806 empregados. Nesse período, 4.566 trabalhadores tiveram seus contratos formalizados no curso do ato fiscal, enquanto 7.731 casos de trabalho análogo ao de escravo foram identificados.

    Os auditores-fiscais do Trabalho lavraram 10.665 autos de infração que resultaram no pagamento de seguro-desemprego para 5.475 trabalhadores. Somente em 2026, foram resgatados 416 trabalhadores em situação análoga à escravidão.

    O trabalho escravo é um dos temas principais do seminário Entre a Norma e o Real: Desafios e Perspectivas do Mundo do Trabalho, que ocorre nos próximos dias 20 e 21, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte.

    O evento é promovido pela Delegacia Sindical de Minas Gerais do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (DS-MG/SINAIT), em parceria com a Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da Faculdade de Direito da UFMG (CTETP/UFMG).

    Autos de infração

    O diretor da Delegacia Sindical de Minas Gerais do SINAIT, auditor-fiscal do trabalho Rogério Lopes da Costa Reis contou à Agência Brasil que as empresas fiscalizadas têm prazo administrativo de dez dias para defesa, após o conhecimento do auto de infração, e mais dez dias para apresentar recurso, se a decisão for julgada procedente.

    No final, ficando caracterizado o trabalho escravo, o nome da empresa passa a figurar, pelo prazo de dois anos, na listagem de empregadores que submeteram trabalhadores a trabalho escravo. E pagam multas também.

    As multas são administrativas, representadas pelos próprios autos de infração lavrados. Esses autos incluem não só autuações referentes à irregularidade de ter trabalhadores na informalidade, que é a autuação por falta de registro, mas também a autuação por questões da segurança e saúde, como não entrega de equipamentos de proteção individual (EPIs), não fornecimento de banheiro, não fornecimento de água, dependendo de cada caso, disse Costa Reis. 

    Segundo o diretor, às vezes as empresas fazem um termo de ajustamento de conduta, na própria ação, com o Ministério Público do Trabalho (MPT), que também pode definir valores a serem quitados como dano moral individual ao trabalhador, bem como dano moral coletivo.

    No caso de falta de registro, por exemplo, uma pequena empresa paga multa de R$ 800 para cada trabalhador sem registro. Esse valor sobe para R$ 3 mil por trabalhador sem registro, para uma empresa de maior porte.

    Pela caracterização de trabalho escravo, porém, a multa é quase irrisória e não chega a R$ 500, disse o auditor-fiscal do Trabalho.

    Costa Reis adverte, por outro lado, que a empresa autuada e julgada procedente pela caracterização de trabalho escravo sofrerá repercussões negativas da parte das instituições financeiras ao ter seu nome incluído na lista de trabalho escravo.

    Para ele, o seminário vai aproximar a experiência da fiscalização do debate acadêmico e jurídico.

    “A legislação estabelece direitos e parâmetros fundamentais para a proteção de quem trabalha, mas a realidade encontrada pelos auditores-fiscais muitas vezes revela situações de extrema vulnerabilidade e violações, demonstrando assim que parte da sociedade está longe de promover a dignidade no mundo do trabalho”.

    Para Costa Reis, o evento vai aproximar fiscalização, universidade, operadores do Direito e a sociedade para discutir caminhos concretos de enfrentamento dessas violações.

    Tráfico de pessoas

    De 2013 a 2026, os auditores-fiscais do Trabalho de Minas Gerais libertaram 3.676 pessoas vítimas de tráfico. O auditor Costa Reis esclareceu que as ações tentam sempre evitar que a exploração acabe caracterizando trabalho análogo ao de escravo, além de exploração sexual.

    “Para ter o tráfico de pessoas, você tem que ter, pelo menos, uma oferta enganosa da coisa. Por exemplo, falam que você pode vir que vai receber tudo. Chega lá, é tudo diferente. O alojamento não é adequado, o contratante começa a cobrar, a pessoa começa a ter dívida. Aí caracteriza esse tráfico”.

    Os auditores-fiscais enfrentam também resistência da parte de mulheres vítimas de tráfico sexual, que não querem ser caracterizadas como prostitutas.

    Proteção policial

    A Auditoria Fiscal do Trabalho vem combatendo o trabalho escravo desde 1995, quando foram realizadas as primeiras ações, que eram centralizadas em Brasília.

    “Os grupos especiais de trabalho, a análise, a fiscalização móvel eram todos gerenciados, planejados e executados pelo órgão central, na capital federal”.

    Minas Gerais foi o primeiro estado do Brasil a ter uma equipe específica de combate ao trabalho análogo ao de escravo, o que ocorreu a partir de 2013. Costa Reis afirmou que, por isso, Minas Gerais sempre apresenta os maiores números frente aos demais estados brasileiros, “porque a gente tem uma grande experiência nesse período todo”.

    A auditoria adquiriu procedimentos a serem usados nas operações, porque não se trata de uma fiscalização normal.

    “Você tem que ir com proteção policial, porque nós já tivemos casos de colegas que foram assassinados em Unaí. Então, a gente sempre toma toda precaução para fazer essa fiscalização. Às vezes, há muita resistência da parte do empregador e, também, até do trabalhador pela caracterização de trabalho escravo”, explicou.

    A Chacina de Unaí ocorreu em 28 de janeiro de 2004, quando três auditores-fiscais do trabalho e um motorista do Ministério do Trabalho foram assassinados em uma emboscada na zona rural de Unaí (MG) durante fiscalização de combate ao trabalho escravo.

    Pela instrução normativa, os auditores-fiscais do Trabalho são obrigados a fazer a comunicação ao empregador de que tem que paralisar as atividades dos trabalhadores que estão na condição de trabalho análogo ao de escravo, fazer o acerto dos contratos de trabalho, se eles estiverem na informalidade, e efetuar o pagamento das rescisões contratuais, como se fosse demissão sem justa causa.

    “Porque o trabalhador não tem culpa da situação em que ele foi encontrado. A culpa é toda do empregador e ele deve ser responsabilizado por isso. Na conversa com esses empregadores, eles sempre falam assim: ‘Eu estou fazendo um grande favor por dar emprego para essas pessoas, que não têm condição boa’”.

    Costa Reis argumenta que as pessoas têm de ter, no mínimo, o marco legal brasileiro de trabalho, que inclui o registro em carteira, a garantia de que a empresa vai fornecer os equipamentos para que o trabalhador realize suas tarefas.

    “É isso que acontece ainda, não só no meio rural, mas também no meio urbano, como os casos de trabalho escravo doméstico. A pessoa não recebe nenhum salário e, muitas vezes, é impedida até de ter contato com a família”. 

     

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Busca por memória e justiça marca três anos da morte de Mãe Bernadete

    Busca por memória e justiça marca três anos da morte de Mãe Bernadete

    Manter a memória e o legado de Mãe Bernadete vivos e também buscar justiça inspiram familiares, amigos e instituições em defesa dos direitos humanos três anos após o assassinato brutal da liderança quilombola.

    A ativista foi morta com 25 tiros (a maioria no rosto) quando estava no sofá de casa, na comunidade de Pitanga dos Palmares, na cidade de Simões Filho (BA).

    Para marcar a data, uma missa no Santuário do Senhor do Bonfim da Bahia, a Igreja do Bonfim, em Salvador (BA), está marcada para esta segunda-feira (17), às 9h. 

    “Acredito que, apesar dos desafios cotidianos, que existem em muitas comunidades quilombolas, a gente tem feito um bom trabalho ao preservar o legado dela”, afirma o neto, Wellington Pacífico, de 25 anos de idade, em entrevista à Agência Brasil. 
     


    Simões Filho/ Bahia 19/08/2023 Casa da Mãe Bernadete, liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, assassinada na Bahia. Foto Janaína Neri.
    Simões Filho/ Bahia 19/08/2023 Casa da Mãe Bernadete, liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, assassinada na Bahia. Foto Janaína Neri.
    Casa de Mãe Bernadete, liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, na Bahia. Foto Janaína Neri.

    Feridas

    Wellington estava na casa, com mais duas crianças da família, quando a avó foi assassinada. A morte de Bernadete foi a segunda grande perda do rapaz. O pai dele, o também ativista Flávio Pacífico, o Binho, de 36 anos, também foi assassinado no ano de 2017. 

    “São feridas que não foram reparadas. Para a nossa comunidade, é uma dor perder minha avó, perder meu pai e ainda por cima viver, conviver com a impunidade de não haver justiça.”

    Ele recorda que a avó buscava justiça por Binho. “Apesar dessa injustiça, a gente se esforça para motivar as boas memórias, semear novas expectativas e ressignificar tudo o que aconteceu”. 

    Faz parte dessa ressignificação transformar o luto em luta. “Entendo que eu devo me qualificar cada dia mais para que eu possa ajudar de alguma forma as pessoas.”

    Direito

    Wellington, que está no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), resolveu ingressar no curso de direito em uma faculdade da Bahia, para lutar por justiça por sua família e pelas comunidades quilombolas no Estado. 

    “Tive minha família destruída, atravessada por tragédias, tendo que se reconstruir a cada dia. Essas vivências me fizeram ter outro olhar para o direito”, afirmou.

    Ele conta que os acusados pela morte da avó estão presos. Dois dos acusados tiveram julgamento em abril. Arielson da Conceição dos Santos (o executor) foi condenado a mais de 40 anos de prisão e Marílio dos Santos, um dos envolvidos no planejamento do crime, recebeu pena de 29 anos e 9 meses. 

    Outros três acusados aguardam julgamento, que deve ocorrer em outubro, segundo estimativa da família. O processo tramita em segredo, e o Tribunal de Justiça da Bahia não confirmou a data do julgamento.

    “A gente espera que a justiça seja feita. Toda vez que falarmos da Mãe Bernadete, a gente tem que falar do Binho do Quilombo. Suspeitos foram presos e depois soltos. Eu diria até que há risco de vitimar outras lideranças.”

    Wellington afirma que é necessário manter esses crimes sob visibilidade no País. “A gente aprende muito quando os holofotes se apagam.”

    Legado

    Ainda na intenção de manter o legado de Mãe Bernadete, a família deve promover um novo festival de cultura e arte quilombola. À frente da iniciativa, está o filho dela, Jurandir Pacífico. Ele diz que o legado da mãe e do irmão o inspira a trabalhar em projetos que mobilizem a própria comunidade e também outros quilombos.

    Ele acrescenta que busca parcerias para os projetos a fim de que nada seja interrompido, como os festivais, os cursos de artesanato e a cozinha solidária. “Estamos buscando políticas públicas para as comunidades quilombolas”.
     


    Salvador (BA), 17.08.2024 - Evento na casa de Dona Bernadete. Foto: Alberto Lima/Divulgação
    Salvador (BA), 17.08.2024 - Evento na casa de Dona Bernadete. Foto: Alberto Lima/Divulgação
    Evento na casa de Mãe Bernadete destaca legado da ativista e pede justiça por sua morte.  Alberto Lima/Divulgação

    Proteção

    A ativista Selma Dealdina, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) conhecia de perto o trabalho de Mãe Bernadete. Ela estará nesta segunda na missa em homenagem à amiga. Emocionada, ela contextualiza que a brutalidade da morte de Bernadete deixa um recado dolorido. 

    “A gente espera mais do Estado Brasileiro na proteção dos defensores e defensoras de direitos humanos, das lideranças quilombolas que fazem a luta pela terra, que fazem a luta para salvaguardar os territórios.”

    A Conaq emitiu nota em que exige a responsabilização dos acusados da morte de Bernadete e medidas efetivas para garantir a segurança das lideranças quilombolas. 

    “Lembramos a mulher que cuidava, liderava, ensinava, acolhia e enfrentava as injustiças. Lembramos a ialorixá que carregava a força de sua ancestralidade”, informa o documento. 

    A entidade acrescenta que Bernadete fez de sua existência uma “trincheira” em defesa de seu povo e que, três anos depois do assassinato, a voz da ativista continua ecoando nos quilombos. 

    “Sua memória está nas mulheres quilombolas que seguem ocupando espaços de decisão, está nas comunidades que resistem às ameaças e lutam pelo direito de existir com dignidade.”

    Cor e gênero

    A historiadora baiana Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, destaca que as mulheres negras, defensoras de direitos humanos, são vítimas do racismo, da violência doméstica e de outras violações. “As desigualdades no Brasil têm cor e gênero. Esse conjunto de violências nos deixa acuada na luta por garantia de direitos.” 

    O racismo, articulado com o sexismo, mantém as mulheres negras em uma condição de vulnerabilidade. Levantamento da Conaq mostrou que o assassinato de Bernadete não foi isolado. Pelo menos 22 mulheres foram mortas entre 2016 e 2024 e outras 33 foram ameaçadas apenas entre os anos de 2021 e 2023. 

    Somente 12,6% dos mais de 1 milhão de brasileiros quilombolas estão em territórios demarcados. “Precisamos estar seguros no nosso território”, diz Selma Dealdina.

    Diante da situação, a Conaq apresentou um plano emergencial de proteção de mulheres quilombolas a fim de ser apresentado ao poder público. “Para que as pessoas não sintam medo de fazer a luta pela terra”, defendeu a ativista da Conaq.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Publicação lembra 50 anos do atentado à sede da ABI na ditadura

    Publicação lembra 50 anos do atentado à sede da ABI na ditadura

    Na próxima quarta-feira (19), um dos atentados que tentaram calar vozes democráticas que lutavam contra a ditadura militar (1964-1985) completa 50 anos: a explosão da bomba no prédio-sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro do Rio de Janeiro. Para marcar a data, a instituição lançou neste sábado uma edição especial do Boletim da ABI. 

    A explosão ocorreu no sétimo andar do edifício número 71 da Rua Araújo Porto Alegre. O atentado de 19 de agosto de 1976 destruiu dois banheiros próximo à sala da presidência da entidade. Houve estragos em salas vizinhas, no elevador e em outros dois andares. Ninguém se feriu.

    A publicação especial é fundamentada em documentos históricos e relatórios confidenciais que, além de relembrarem o atentado, a repercussão e a reação da sociedade civil, destaca a importância da imprensa livre para resistência em períodos autoritários e vigilância contra a censura e a violência política.

    Documentos históricos

    Uma das principais fontes de pesquisa para a publicação foi a edição de julho-agosto de 1976 do Boletim ABI, publicada logo após o atentado terrorista. A ABI traz detalhes também de documentos produzidos pelos órgãos de informação da ditadura militar. 

    Entre eles, um informe confidencial do Serviço Nacional de Informações (SNI), de setembro de 1976, disponibilizado pelo projeto Memórias Reveladas, do Arquivo Nacional.

    De acordo com a ABI, o registro do SNI impressiona pelo grau de informação de que dispunham os órgãos de segurança sobre acontecimentos, reuniões e movimentações da entidade.

    “Esse registro ajuda, assim, a dimensionar o aparato de vigilância política que atuava naquele período”, afirma a associação.

    A publicação, editada pelo conselheiro da associação Geraldo Cantarino, traz fotografias de como ficaram as áreas atingidas do prédio de 13 andares, inaugurado em 1938, considerado referência da arquitetura moderna brasileira. Até hoje o endereço é sede da ABI.
     


    Cinquenta anos do atentado a bomba na ABI. Foto:Divulgação/ ABI
    Cinquenta anos do atentado a bomba na ABI. Foto:Divulgação/ ABI
    A bomba destruiu dois banheiros próximo à sala da presidência da entidade. Foto: Divulgação/ ABI

    Contexto político

    O grupo paramilitar de extrema-direita Aliança Anticomunista Brasileira (AAB) assumiu a autoria do atentado em um panfleto deixado no prédio após a explosão.

    A organização acusava a ABI de estar “totalmente dominada pelos comunistas” e afirmava que a entidade havia sido escolhida para receber a “primeira advertência”.

    “Ao defender a liberdade de imprensa, os direitos humanos e a livre manifestação do pensamento, tornou-se também alvo da intolerância de grupos radicais de extrema-direita, contrários aos incipientes movimentos de abertura política – a chamada ‘distensão’ do regime ditatorial”, explica o atual presidente da ABI, Octávio Costa.

    À época, a AIB era presidida pelo jornalista Barbosa Lima Sobrinho. No corpo da instituição havia nomes como Alberto Dines, Maurício Azêdo, Marcelo Beraba e Odylo Costa Filho.

    Outros atentados

    Para a ABI, o atentado de 50 anos atrás não deve ser visto isoladamente. Fazia parte de um cenário de violência e intimidação política “que buscava conter qualquer possibilidade de avanço das liberdades democráticas”.

    Naquele mesmo dia, uma bomba atribuída à mesma organização clandestina foi colocada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Rio de Janeiro. O artefato não explodiu por causa de uma falha no mecanismo de detonação.

     A publicação lançada neste sábado contextualiza que o país sofreu outros atentados que tinham o objetivo de impedir a distensão da ditadura militar. O general Ernesto Geisel, que tinha assumido a Presidência em 1974, defendia uma abertura “lenta, gradual e segura”.

    No dia seguinte, 20 de agosto, duas bombas do tipo coquetel molotov foram jogadas de madrugada na 1ª Auditoria da 3ª Circunscrição Militar de Porto Alegre, provocando princípio de incêndio.

    Cerca de duas semanas depois, em 4 de setembro de 1976, uma bomba de fabricação caseira explodiu de madrugada no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em São Paulo.

    O Jornal do Brasil, um dos periódicos mais importantes da época, informou que, entre agosto e novembro de 1976, aconteceram nove atentados terroristas no Rio de Janeiro, oito deles assumidos pela AAB. “Apesar disso, o aparato de inteligência e repressão nunca chegou aos autores dos atentados”, acrescenta a ABI.

    Ato em homenagem

    No dia 19, às 17h, a ABI fará um ato no sétimo andar o prédio-sede para lembrar os 50 anos do atentado. Também será colocada uma placa com frase de repúdio ao terrorismo e de valorização da democracia.

    “A Casa do Jornalista permanecerá vigilante diante de qualquer ameaça ao Estado Democrático de Direito”, conclui Octávio Costa.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original