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  • COP17 caminha para novo adiamento de acordo de combate às secas

    COP17 caminha para novo adiamento de acordo de combate às secas

    A criação de um regime global para enfrentar as secas será adiada mais uma vez. Enquanto declarações oficiais sinalizam alguma esperança, negociadores envolvidos diretamente no processo indicam que não há dúvidas sobre o desfecho da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que está sendo realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia.

    O evento termina oficialmente nesta sexta-feira (28), mas um grupo de países já deixou claro que não haverá acordo sobre o tema. A oposição é liderada principalmente pelos Estados Unidos (EUA) e pela União Europeia (UE), mas é compartilhada por outros países sul-americanos como Argentina, Chile e Paraguai.

    O que está acordado até o momento é a apresentação de uma decisão procedimental ao fim da conferência, deixando novas discussões sobre o tema para a COP18, em 2028, que provavelmente será realizada no Egito. Algo igual ocorreu na COP16, em Riad, na Arábia Saudita.

    O Brasil se coloca a favor da criação do regime das secas, mas entende que, como não será possível chegar a um consenso mais uma vez, o melhor é manter o tema na agenda para futuras discussões.

    Até mesmo esse encaminhamento precisou ser mediado durante a semana, principalmente pelo Brasil e a Arábia Saudita. Enquanto representantes dos Estados Unidos queriam a exclusão total do tema dos documentos finais, países da África insistiam na criação efetiva do mecanismo.

    A proposta é defendida por africanos há, pelo menos, três conferências. Historicamente afetados pela escassez hídrica e expansão de desertos, eles exigem um mecanismo multilateral para enfrentar de forma coordenada esses problemas.

    Isso demandaria ajuda financeira para os países mais vulneráveis serem capazes de se antecipar e se recuperar dos eventos extremos. Eles entendem que mecanismos internacionais, como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), são estruturados sob o tema de degradação das terras, algo mais amplo do que a seca.

    Os países mais ricos, porém, não querem se comprometer com um acordo obrigatório e defendem adesão voluntária. A União Europeia não quer se comprometer com gastos externos, principalmente quando precisa enfrentar crises recentes de seca no próprio território.

    Os impasses são financeiros, mas também geopolíticos. Alguns países, liderados principalmente pelos Estados Unidos, tentam enfraquecer e travar agendas multilaterais como um todo desde o primeiro dia da COP17.

    Contexto geopolítico desfavorável

    Uma vez que o documento final da COP17 deverá ser apresentado somente ao fim do evento, autoridades envolvidas nas negociações tentam ser otimistas. É o caso de Andrea Meza Murillo, secretária executiva adjunta da UNCCD, órgão das Nações Unidas responsável pela conferência.


    Brasília (DF), 27/08/2026 - Andrea Meza, secretária-executiva adjunta da UNCCD, em reunião na COP17.
Foto: Kiara Worth/UNCCD
    Brasília (DF), 27/08/2026 - Andrea Meza, secretária-executiva adjunta da UNCCD, em reunião na COP17.
Foto: Kiara Worth/UNCCD
    Andrea Meza, secretária executiva adjunta da UNCCD, diz, na COP17, na Mongólia, que espera acordo para combate às secas – Foto Kiara Worth/UNCCD

    Meza disse esperar por um acordo sobre as secas, porém, não escondeu que há dificuldades.

    “Estamos em um momento em que o túnel está escuro, mas acho que sempre haverá uma luz no fim dele. Temos esperança e estamos trabalhando muito para isso”, disse Meza em entrevista à Agência Brasil e a cinco veículos internacionais.

    “Acho que a maioria dos países não pode simplesmente voltar para suas bases eleitorais e dizer que este não é um desafio comum global e que eles não vão colaborar com a comunidade internacional para enfrentá-lo”, complementa. 

    Andrea Meza, que também foi ministra do Meio Ambiente e Energia da Costa Rica, disse confiar na pressão social para que os governos assumam a urgência do tema.

    “Quando governos esquecem de suas responsabilidades, uma sociedade civil forte, ONGs e o setor privado podem dar continuidade a isso. Engajamento e uma agenda de ação robusta, com muitas iniciativas, projetos e programas, são o caminho para que isso ocorra”, reflete Meza.

    “Porém, neste novo contexto geopolítico, teremos cada vez mais dificuldades para alcançar resultados negociados ambiciosos”, complementa.

    Urgência do problema

    Relatórios da UNCCD indicam que a frequência, intensidade e alcance espacial das secas aumentaram quase 30% desde 2000. A extensão do problema é reforçada por eventos recentes na Europa, África, Ásia e América Latina. 

    Segundo o coordenador do grupo de trabalho sobre seca da UNCCD, Daniel Tsegai, tratar o fenômeno como desastre imprevisível é abordagem ultrapassada. Ele defende que os países precisam instituir políticas permanentes para atuar antes, durante e após os períodos de eventos extremos.

    “Para uma crise pontual, você não se prepara: apenas espera que ela chegue com força e depois tenta reagir. Mas a seca agora é uma crise constante. Precisamos mudar esse paradigma da gestão de crises para a gestão preventiva de riscos”, ponderou o especialista.

    Tsegai alertou que a seca deixou de ser um problema exclusivo do setor agrícola ou de falta de chuva temporária, tornando-se um risco sistêmico que afeta hidrovias, transporte, saúde e o comércio global.

    Mesmo países não atingidos diretamente pela falta de chuva sofrem as consequências econômicas e de deslocamento populacional. Eventos climáticos em um local geram impactos logísticos e econômicos em outros continentes. Tsagai cita o exemplo de como uma redução do nível da água no Canal do Panamá ou no Rio Reno podem afetar o comércio internacional e o suprimento de grãos.

    O especialista enfatizou que os impactos transfronteiriços da seca exigem resposta unificada e que a preparação deve ocorrer antes que o evento extremo se materialize.

    “Não devemos esperar até que a seca nos atinja para dizer se éramos resilientes ou não. Isso é tarde demais. Alcançamos um momento em que esta é a prioridade máxima. Vamos olhar para isso juntos e encontrar uma solução”, pede Tsagai.

    Iniciativas paralelas de financiamento

    Enquanto o regime global de secas continua sob incertezas, iniciativas paralelas sobre o tema avançam durante a COP17. Duas delas envolvem mecanismos de financiamento.

    A Aliança de Riad para Resiliência Global à Seca (RGDRP, na sigla em inglês) está desenvolvendo um fundo comum para ajudar 70 países em desenvolvimento a resistir e se adaptar ao fenômeno. A primeira assembleia do grupo ocorreu na Mongólia. 

    A Arábia Saudita, fundadora da aliança, se comprometeu a investir US$ 150 milhões. O Banco Islâmico de Desenvolvimento e o Fundo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opeo) prometeram aporte de US$ 2 bilhões.

    Outro anúncio feito em Ulaanbaatar foi a criação do Fundo de Investimento para Resiliência à Seca (Drif, na sigla em inglês), considerada a primeira plataforma global de financiamento catalítico.

    Investimentos nessa modalidade aplicam recursos públicos, filantrópicos ou subsidiados para assumir maiores riscos ou aceitar retornos financeiros menores, com o objetivo principal de atrair e destravar capital privado em larga escala.

    O fundo foi criado pela UNCCD e o governo de Luxemburgo, com apoio da Aliança Internacional para Resiliência à Seca (Idra). O país europeu fez aporte inicial de US$ 2 milhões. O objetivo do fundo é mobilizar até US$ 400 milhões em capital público e privado.


    Brasília (DF), 27/08/2026 - Vista das estruturas da  COP17.
Foto: Kiara Worth/UNCCD
    Brasília (DF), 27/08/2026 - Vista das estruturas da  COP17.
Foto: Kiara Worth/UNCCD
    Conferência apresenta Fase 2 do Observatório Internacional de Resiliência à Seca – Foto Kiara Worth/UNCCD

    Plataforma contra seca

    Foi apresentada na Mongólia a Fase 2 do Observatório Internacional de Resiliência à Seca (Idro, na sigla em inglês), uma plataforma desenvolvida pela UNCCD, o Centro de Ecossistemas e Arquitetura de Yale e a Aliança Internacional de Resiliência à Seca (Idra).

    A nova etapa marca uma transição entre a versão piloto apresentada na COP16 e a plataforma online que promete ajudar os países a irem além do simples monitoramento dos riscos de seca.

    Ela se baseia no Índice de Resiliência à Seca (DRI), que define a capacidade dos países de antecipação, preparação e adaptação ao fenômeno. O objetivo é identificar vulnerabilidades e fundamentar políticas e investimentos mais eficazes.

    Há recursos com inteligência artificial para ajudar formuladores de políticas, especialistas técnicos e o público em geral a interpretar dados complexos. A plataforma inclui oito estudos de caso detalhados de países em cinco continentes. Ela está aberta para revisão por usuários do mundo todo, que podem ajudar a aprimorar a ferramenta.

    * O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Degradação da terra e clima extremo ameaçam nômades na Mongólia

    Degradação da terra e clima extremo ameaçam nômades na Mongólia

    O nômade Batchuluun Maamun, de 57 anos, cresceu nas estepes da Mongólia sempre atento aos sinais da natureza e do céu. Quando o vento chega com intensidade do sul, é questão de tempo para a chuva chegar. Se o sol nasce com um anel de arco-íris ao redor, a previsão é de frio e neve intensos.

    Nas últimas décadas, esses sinais têm trazido cada vez mais preocupação e ansiedade. Episódios recentes de seca prejudicaram a vegetação e fizeram ovelhas, cabras, cavalos e bois sofrerem com o calor. Em 2010, um inverno extremo, conhecido como dzud, provocou a morte de 700 dos 1,3 mil animais que eles tinham. No dzud de 2020, a perda foi de 20% desse rebanho.


    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas. Nômade Batchuluun Maamun, de 57 anos
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil
    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas. Nômade Batchuluun Maamun, de 57 anos
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil
    Nômade Batchuluun Maamun, de 57 anos, vê sinais mais fortes da crise climática Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil

    Batchuluun Maamun vive com a família em uma comunidade de pastores na zona de amortecimento do Parque Nacional de Hustai, que fica a cerca de 100 km a sudoeste da capital. A área permite moradia e uso do solo, mas possui um conjunto de regulamentações para não prejudicar o meio ambiente.

    Há 27 anos eles migraram para a região em busca de condições melhores, percorrendo mil quilômetros de distância desde o ponto anterior. Movimentos são parte essencial da vida nômade e são ditados pelas estações. Durante o verão, eles ficam no acampamento atual. No inverno, se mudam para uma cabana a cerca de 10 km de distância, para se abrigar melhor do frio.

    A degradação das pastagens, o sobrepastoreio, a mineração, a redução das fontes de água e eventos climáticos extremos ameaçam uma forma de vida que depende diretamente da saúde dos ecossistemas.

    Cerca de 70% a 76% do território da Mongólia sofre com a desertificação e a degradação do solo, segundo a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD). Isso equivale a aproximadamente 36 milhões de hectares.

    Batchuluun espera que as autoridades reunidas na capital Ulaanbaatar para a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17)  tragam soluções e esperança para os nômades e para a terra.

    “Achamos positivo que temas como seca e sobrepastoreio estejam sendo debatidos, pois são nossos maiores problemas. Queremos que cada um dos participantes compartilhe da ideia de respeitar a natureza e que isso seja ensinado para as futuras gerações desde os primeiros anos de vida”, diz. 


    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas.
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil
    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas.
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil
    Episódios recentes de seca prejudicaram a vegetação e fizeram ovelhas, cabras, cavalos e bois sofrerem com o calor. Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil

    A terra precisa descansar

    Durante muito tempo, as grandes extensões de pastagens foram utilizadas por nômades e outros criadores de gado sem limites formais bem definidos. Com o aumento dos rebanhos e outras pressões sobre o território, porém, a capacidade de suporte de algumas áreas começou a ser ultrapassada.

    Segundo o balanço oficial do governo, a Mongólia possuía cerca de 58 milhões de animais de rebanho em 2025, crescimento de 0,8% em relação a 2024. Esse número já chegou a ser de 71 milhões antes do dzud de 2023, quando milhões morreram pelo frio.

    O número é bem superior ao total da população humana. A Mongólia tem um total de 3 milhões e 400 mil pessoas, sendo que 700 mil, ou 30%, são nômades ou seminômades. É o 18º maior país do mundo em termos territoriais, mas é o menos povoado de todos.

    A resposta encontrada pela família de Batchuluun e os vizinhos para lidar com a degradação do solo foi deixar determinadas áreas sem uso. Para permitir que a natureza se recuperasse, decidiram não voltar durante dois anos em um dos locais onde costumavam manter os animais.

    Quando retornaram, viram que a vegetação havia voltado a crescer.

    Para reduzir a pressão sobre o território, muitos criadores passaram a buscar animais mais produtivos e a diversificar a renda, aproveitando melhor o leite, a carne, a lã e outros produtos.

    “Antes, era como se as pessoas quisessem aumentar cada vez mais o número de animais. Agora há uma preocupação maior em aproveitar melhor cada um deles”, relata Maamun. 

    Continuidade dos jovens


    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas. -  Oyunchimeg Shuurai, 53 anos
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil
    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas. -  Oyunchimeg Shuurai, 53 anos
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil

    Nômade Oyunchimeg Shuurai, 53 anos, defende uso equilibrado da terra Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil

    Para a mulher de Batchuluun, Oyunchimeg Shuurai, de 53 anos, esse aprendizado é uma forma de deixar condições melhores para novas gerações.

    “Se continuássemos apenas fazendo o que sempre fizemos, sem aprender outras formas de viver e produzir, isso não seria bom para o futuro”, diz Oyunchimeg.

    O nomadismo também depende de jovens interessados em seguir esse modo de vida. Oyunchimeg e Batchuluun têm quatro filhos. Eles não pretendem obrigá-los a se tornarem pastores, mas gostariam que pelo menos um deles escolhesse continuar a tradição.

    “Não pode ser uma obrigação”, diz Maamun. “Mas eu ficaria feliz se algum deles quisesse”.

    O futuro do nomadismo, para o casal, depende justamente de encontrar equilíbrio entre conhecimentos tradicionais e novos.

    A família usa painéis solares para produzir eletricidade e conservar alimentos. No inverno, utiliza esterco seco de animais como combustível para aquecimento, em vez de depender exclusivamente de fontes fósseis.

    A tecnologia, porém, não mudou o princípio central que orienta sua relação com a estepe: proteger a natureza não significa manter a terra intocada, mas saber quando e como utilizá-la, sem retirar dela mais do que ela pode oferecer.

    “Quando a única preocupação passa a ser o lucro, a terra acaba sendo destruída”, afirma Oyunchimeg.

     

    *O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Indígenas cobram participação nas decisões da COP da Desertificação

    Indígenas cobram participação nas decisões da COP da Desertificação

    Indígenas de diferentes partes do mundo protestaram nesta quinta-feira (20) para serem incluídos nas negociações oficiais da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que está sendo realizada em Ulaanbaatar, capital da Mongólia.

    Eles consideram que o espaço específico criado este ano para se reunirem dentro do evento, chamado de Caucus Indígena e de Comunidades Tradicionais, é insuficiente, por ser “meramente simbólico” e não permitir uma participação “significativa, plena e efetiva”.


    Indígenas cobram participação nas decisões da COP da Desertificação. ( Oumarou Ibrahim Hindou, líder da Associação das Mulheres Indígenas Peules do Chade (AFPAT). Foto: Kiara worth
    Indígenas cobram participação nas decisões da COP da Desertificação. ( Oumarou Ibrahim Hindou, líder da Associação das Mulheres Indígenas Peules do Chade (AFPAT). Foto: Kiara worth
    Oumarou Ibrahim Hindou defende que participação indígena não pode ser só simbólica FotoKiara worth

    A líder da Associação das Mulheres Indígenas Peules do Chade (AFPAT, na sigla em francês), Oumarou Ibrahim Hindou, cobrou que os líderes dos governos presentes na conferência tenham mais respeito pelos povos tradicionais.

    “Nossa participação não pode ser meramente simbólica. Estamos aqui para reivindicar nossa terra e nossos territórios. Queremos que nossos conhecimentos e nossos direitos sejam reconhecidos. Não haverá COP sem as pessoas da terra. Nós estamos prontos para lutar”, disse Oumarou.

    Os manifestantes também exigiram que a agenda oficial da conferência volte a incluir temas sobre gênero e participação social. Ambos foram excluídos a pedido dos Estados Unidos. É preciso ter consenso entre as 197 partes da convenção para que o documento seja aprovado. Ele é estratégico por definir o que será negociado efetivamente pelos governos.

    A líder quechua da nação Kuntur Wanka, da região de Junín, no Perú, Sonia Astuhuamán Pardavé, defende que os indígenas são os principais guardiões da natureza e não podem ser excluídos de decisões que terão impacto direto sobre a vida deles.

    “Representamos comunidades inteiras e temos a chave para solucionar a crise da terra e a crise climática, porque nossos ancestrais também viveram tempos como estes e souberam encontrar soluções para construir uma vida em harmonia com a natureza”, disse Wanka.

    “O que será do planeta se deixarmos que destruam tudo? Quando não tivermos mais água e a terra estiver seca, como vão viver nossas crianças plantas e animais?”, concluiu.

    Declaração de Ulaanbaatar

    Também foi publicada nesta quinta-feira, em um evento paralelo, a Declaração de Ulaanbaatar: Apelo à Ação Global de Povos Pastoris e Indígenas. O documento destaca que estas comunidades são fundamentais para a conservação da biodiversidade, a segurança alimentar e a gestão sustentável de áreas de pastagem e rejeita a ideia de que o pastoreio seja uma atividade atrasada ou responsável pela desertificação.

    Entre as principais reivindicações está o reconhecimento dos direitos territoriais e da mobilidade, considerada não apenas uma característica cultural e econômica, mas também uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas.

    O documento afirma que essas populações estão entre as mais afetadas pelo aquecimento global, apesar de sua baixa contribuição para as emissões, e reivindica acesso direto a recursos para adaptação, preparação para secas e fortalecimento da resiliência.

    A declaração pede que governos protejam corredores de circulação de pessoas e animais, inclusive entre fronteiras, e garantam o acesso sazonal a pastagens, água e mercados. Também alerta para a perda e fragmentação de áreas de pastagem provocadas por mineração, energia, infraestrutura, agricultura, turismo e outros grandes empreendimentos.

    O texto ainda cobra mudanças no acesso a financiamento, com recursos diretos, flexíveis e sem intermediários quando as comunidades não os desejarem, além da criação de mecanismos específicos para iniciativas lideradas por povos pastoris. Entre as propostas estão fundos dedicados à restauração de pastagens, adaptação climática, conservação da biodiversidade, segurança alimentar, saúde e educação.

    Ao final, os participantes pedem que a Declaração de Ulaanbaatar seja incorporada aos resultados oficiais da COP17 e anunciam a realização de um novo encontro global de povos pastoris e indígenas em 2030.

    *O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Sociedade civil rejeita agenda excludente aprovada no início da COP17

    Sociedade civil rejeita agenda excludente aprovada no início da COP17

    Organizações sociais tiveram uma decepção logo nos primeiros dias da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), em Ulaanbaatar, Mongólia. A agenda oficial, que define o que os governos concordam em negociar durante o evento, excluiu temas de gênero e participação social.

    O Civil Society Organization (CSO) Panel, que reúne cerca de 1,2 mil organizações pelo mundo, rejeitou o documento e disse que a comunidade “está chocada e profundamente preocupada”. O entendimento é de que os governos sinalizaram preferir focar em aspectos técnicos e econômicos, e deixar de lado os impactos sociais da desertificação e da seca.

    O risco é que o resultado final da COP17 seja tecnocrático e distante da realidade das populações que mais sofrem com os problemas da terra.

    “Comunidades locais, povos indígenas, agricultores, pastores, mulheres, jovens, pesquisadores e organizações da sociedade civil trazem conhecimento, experiência e soluções dos territórios onde a degradação do solo, a desertificação e a seca são enfrentadas diariamente”, informa a nota do CSO Panel.

    As organizações insistiram que as decisões no evento precisam ser coletivas: políticos, cientistas e empresas não podem enfrentar sozinhos problemas que afetam milhões de pessoas no planeta.

    Terra, clima e biodiversidade

    O texto oficial também não prevê processos para integrar melhor as três convenções das Nações Unidas sobre meio ambiente, a da Terra (UNCCD), da Biodiversidade (CBD) e do Clima (UNFCCC). Esse é um dos pontos centrais defendidos por especialistas para torná-las mais efetivas.

    As três convenções nasceram a partir da Rio 92, evento que deu origem às discussões e tratados modernos de meio ambiente e clima. No ano passado, durante a 30ª Conferência Sobre Mudanças Climáticas (COP30), líderes das três convenções lançaram a Declaração Conjunta de Belém sobre as Convenções do Rio (Belem Joint Statement on the Rio Conventions).

    O documento destacou que as crises de clima, biodiversidade e degradação do solo estão interligadas e que tratar esses temas de forma isolada prejudica o desenvolvimento sustentável e a eficácia global das medidas de proteção ambiental.

    Cobertura na Mongólia

    A Agência Brasil acompanha a COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia. A viagem é uma parceria com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), que selecionou seis repórteres de diferentes continentes com uma bolsa de jornalismo para cobrir a conferência.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Brasileira defende mais influência dos jovens nas decisões da COP17

    Brasileira defende mais influência dos jovens nas decisões da COP17

    A participação de jovens nas conferências internacionais sobre meio ambiente avançou nos últimos anos, mas ainda há um desafio: fazer com que eles sejam efetivamente integrados aos espaços de decisão. A avaliação é da advogada cearense Beatriz Azevedo, de 33 anos, uma das dez jovens reconhecidas em 2024 como Land Heroes (heróis da terra, em inglês) pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD).

    O título de Land Hero reconhece jovens e organizações de juventude que desenvolvem ações de enfrentamento à desertificação, à degradação da terra e à seca. A seleção busca dar visibilidade a agentes de mudança e aproximá-los dos processos da convenção.

    Para Beatriz, existe uma expectativa de que os jovens sejam parte da solução para a crise ambiental e climática, mas não são oferecidos estrutura, financiamento e oportunidades profissionais proporcionais a essa cobrança.

    Em entrevista à Agência Brasil, a advogada também fala sobre os desafios para transformar representatividade em influência política. Ela discute ainda o financiamento de iniciativas de restauração e as expectativas para a COP17 de Combate à Desertificação.

    A conferência começou na última segunda (17) e segue até 28 de agosto, em Ulaanbaatar, na Mongólia, sob o tema “Restaurando a Terra. Restaurando a Esperança”.

    Participam representantes de 197 países, além de cientistas, empresas, organizações da sociedade civil, povos indígenas, pastores, agricultores familiares e jovens para discutir restauração de terras, seca, segurança alimentar, financiamento e resiliência.

    Beatriz também é presidente da Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e fundadora da ABA Climate Solutions, uma empresa de consultoria especializada em financiamento climático.

    A expectativa da ambientalista é de que a COP17 represente mais uma oportunidade para ampliar a visibilidade sobre problemas que atingem diretamente o Nordeste brasileiro. Enquanto as negociações climáticas costumam concentrar a atenção sobre a Amazônia, Beatriz avalia que a conferência sobre desertificação permite colocar a Caatinga e o Semiárido no centro das discussões.

     


    Brasileira defende mais influência dos jovens nas decisões da COP17
Beatriz Azevedo é reconhecida pela ONU por trabalho contra desertificação. Foto; Arquivo pessoal
    Brasileira defende mais influência dos jovens nas decisões da COP17
Beatriz Azevedo é reconhecida pela ONU por trabalho contra desertificação. Foto; Arquivo pessoal
    Brasileira defende mais influência dos jovens nas decisões da COP17 Beatriz Azevedo é reconhecida pela ONU por trabalho contra desertificação. Foto: Arquivo pessoal

    Confira a entrevista de Beatriz Avezedo à Agência Brasil

    Agência Brasil: Como representante brasileira do Land Hero, de que maneira você conecta as agendas da UNCCD com a realidade do Nordeste, região historicamente afetada pela seca e desertificação?

    Beatriz Azevedo: Levamos a nossa realidade local para o espaço da ONU por conta dos acessos que nos são abertos. Estive em países como Arábia Saudita, China e Panamá, onde tive espaços de fala para compartilhar a realidade do Ceará e as soluções com as quais venho trabalhando. Já são 14 anos nessa trajetória, então cheguei a um ponto em que quero focar nas soluções, nas ecologias e projetos que funcionam.

    A convenção aborda muito a perspectiva de conter e compensar a degradação, tanto pela conservação quanto pela restauração. Hoje, minha empresa está em processo para entrar na coalizão Business4Land, coalizão de empresas que promovem negócios ligados à terra.

    Muitos jovens premiados atuam diretamente na ponta. Uma amiga tem um projeto de restauração com moringa na África. Outro colega atua com agricultores na Índia. A minha iniciativa atua no meio do processo: conectando financiadores às iniciativas. Eu foco no debate sobre financiamento e políticas públicas, além de acompanhar a implementação de políticas estaduais no Conselho Estadual do Meio Ambiente. O objetivo é sempre integrar o contexto local ao internacional.

    Agência Brasil: Você tem participado há anos de diferentes conferências da ONU. Como avalia a participação da juventude nos espaços de decisão?

    Beatriz Azevedo: A participação avançou bastante. Na primeira COP da Desertificação que fui, em 2013, não havia espaço para a juventude. Hoje, temos o Youth Forum, programas como o Land Heroes, o Ecopreneur (para empreendedores verdes) e o Youth Negotiators, que treina jovens negociadores. Em termos de participação e presença, demos um salto de qualidade.

    O desafio atual é como fazer com que as contribuições dos jovens sejam de fato incorporadas nas decisões finais que são tomadas pelos países. Para isso, os jovens precisam atuar diretamente com seus governos nacionais.

    O governo brasileiro historicamente se mostra muito aberto a esse diálogo com o Itamaraty e com os ministérios, o que é fundamental para fundamentar as posições do país.

    Agência Brasil: Por que é necessária uma participação específica da juventude nesses debates ambientais e quais são as principais demandas que ela apresenta?

    Beatriz Azevedo: Há um debate muito forte sobre justiça climática e representatividade das diferentes juventudes existentes. Os jovens se caracterizam por colocar a “mão na massa”, com muita energia, e por apresentar projetos de grande impacto direto na ponta.

    Por outro lado, a juventude é a geração que está sendo preparada para tomar decisões e liderar em um cenário de “novo normal”, marcado pela crise climática e por fenômenos mais severos, como o El Niño.

    Uma juventude consciente da ciência e dos processos de tomada de decisão está muito mais bem preparada. Além disso, esses espaços promovem a articulação em rede com o governo e a sociedade civil, fortalecendo a formação das lideranças.

    Agência Brasil: Quais são suas principais expectativas em relação às pautas que precisam avançar nesta COP da Desertificação?

    Beatriz Azevedo: Vejo que o governo brasileiro tem enfatizado a bioeconomia, a ideia de que a restauração da terra deve caminhar junto com benefícios socioeconômicos, como geração de emprego e renda.

    Na minha empresa, discutimos projetos nessa linha. Por exemplo, a cultura da macaúba para a produção do combustível sustentável de aviação (SAF) pode ser associada a projetos de restauração. Outra frente são os projetos de restauração financiados pelo mercado de carbono.

    Precisamos de decisões que promovam ações sustentáveis do ponto de vista econômico, ambiental e social. Não se pode exigir a conservação sem oferecer meios de subsistência para quem cuida do território.

    É claro que isso deve caminhar lado a lado com a demarcação de terras indígenas e a garantia de direitos. O caminho é viabilizar o financiamento justo para que chegue aos assentamentos rurais e comunidades locais, promovendo a repartição de benefícios.

    Agência Brasil: A COP da Desertificação costuma receber menos atenção do público do que as COPs do Clima e da Biodiversidade. Como você avalia essa diferença e a possibilidade de torná-la mais conhecida?

    Beatriz Azevedo: Ela é de fato menos conhecida. A do Clima vem em primeiro lugar, seguida pela de Biodiversidade e, por fim, a de Desertificação, até por ser um tema muito associado a regiões específicas, como o semiárido nordestino no Brasil.

    Porém, vejo isso como uma oportunidade. Enquanto na COP do Clima a atenção internacional sobre o Brasil se volta prioritariamente para a Amazônia, a COP de Desertificação dá visibilidade para a Caatinga e o Semiárido. É um espaço valioso para o Nordeste pautar suas demandas diretamente com o governo e outros países.

    Agência Brasil: Muitos jovens ativistas relatam uma sensação de sobrecarga e ansiedade. Como você vê esse cenário de pressão sobre os jovens por mais engajamento e resultados, enquanto precisam lidar com notícias frequentes sobre emergência climática, degradação ambiental e incertezas sobre o futuro da humanidade?

    Beatriz Azevedo: Essa reflexão é muito válida. Entre 2016 e 2021, eu me afastei do processo da ONU justamente por me sentir sobrecarregada ao participar das conferências, mas não ver as coisas mudarem no ritmo necessário. Decidi, então, focar no trabalho local.

    Existe uma narrativa forte de que “o jovem é a solução”, mas há pouca estrutura e financiamento dedicados a isso. O trabalho no terceiro setor muitas vezes é instável, apoia-se excessivamente no trabalho voluntário e oferece remunerações precárias. O ativismo abre portas e dá visibilidade, mas nem sempre se traduz em emprego e renda imediatos.

    Esse cenário impacta a saúde mental. Quando retornei para o espaço internacional, mudei meu foco para o financiamento, pois entendi que esse era o principal gargalo: como fazer os recursos chegarem a quem executa.

    Agência Brasil: Qual mensagem você deixaria para os jovens que desejam se engajar na pauta ambiental?

    Beatriz Azevedo: Gostaria de deixar uma mensagem de esperança e incentivo. Embora o tema pareça por vezes pesado, trabalhar com a agenda ambiental é uma oportunidade de atuar alinhado aos seus propósitos e gerar um impacto positivo na sociedade por meio de novas soluções, tecnologias e projetos. Vale a pena seguir esse caminho profissional e de vida.

    Cobertura na Mongólia

    A Agência Brasil acompanha a COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia. A viagem é uma parceria com a UNCCD, que selecionou seis repórteres de diferentes continentes com uma bolsa de jornalismo para cobrir o evento.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • COP17 começa na Mongólia com foco em seca, terra e financiamento

    COP17 começa na Mongólia com foco em seca, terra e financiamento

    Começou nesta segunda-feira (17), em Ulaanbaatar, na Mongólia, a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17). Até o dia 28 de agosto, representantes de 196 países e da União Europeia buscarão soluções para desafios que afetam a vida de todos: combater a seca, restaurar ecossistemas, garantir acesso universal à água e aos alimentos, valorizar povos e territórios tradicionais.

    A terra é o elemento que une todas as discussões. Em torno dela, giram as negociações entre representantes dos governos e da sociedade civil. O evento deste ano traz expectativas por ações mais concretas de proteção da terra e também carrega a missão de resolver pendências deixadas pela última conferência, a COP16, em Riad, na Arábia Saudita, em 2024.

    A principal questão envolve avançar na criação de um novo instrumento internacional para fortalecer a governança sobre secas, tema sobre o qual não se teve acordo em Riad.

    Outro ponto central são as metas de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN, na sigla em inglês). A previsão é que os países participantes apresentem relatórios sobre como têm agido para garantir que a quantidade e a qualidade dos recursos vindos da terra se mantenham estáveis ou avancem.

     


    Manaus (AM), 22/11/2023, Chão rachado devido ao nível baixo do rio Igarapé Tarumã-açu, na maior seca em 121 anos que Manaus vem sofrendo. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
    Manaus (AM), 22/11/2023, Chão rachado devido ao nível baixo do rio Igarapé Tarumã-açu, na maior seca em 121 anos que Manaus vem sofrendo. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
    Chão rachado devido ao nível baixo do rio Igarapé Tarumã-açu, na maior seca em 121 anos que Manaus sofreu em 2023. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

    A ampliação do financiamento global para combater a degradação da terra; o fortalecimento das novas estruturas de participação social ,como grupos de gênero, juventude e povos indígenas; e a maior articulação entre as três convenções ambientais da ONU, a do clima, a da biodiversidade e a da desertificação, completam a lista de demandas principais.

    A secretária-executiva da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD, na sigla em inglês), Yasmine Fouad, disse à Agência Brasil que espera resultados concretos na COP17.

    “Há um reconhecimento crescente entre as Partes de que terras saudáveis ​​são a base para a segurança alimentar e hídrica, a resiliência econômica e o desenvolvimento sustentável”, disse Fouad.

    “A COP17 oferece uma oportunidade não apenas de avançar nas negociações, mas também de demonstrar que a Convenção está se tornando, cada vez mais, uma plataforma para a entrega de soluções práticas e resultados mensuráveis”, complementou.

    A conferência também terá o lançamento de novos relatórios globais como o The Drying Planet – Drought in Numbers 2026 (O Planeta que Seca – A Seca em Números),  a terceira edição do Global Land Outlook 3 (Perspectiva Global da Terra) e o primeiro Índice Mundial de Resiliência à Seca.

     


    Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade.  Nordeste brasileiro é o mais afetado pelos processos de seca e desertificação. Crédito: ASA / Divulgação
    Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade.  Nordeste brasileiro é o mais afetado pelos processos de seca e desertificação. Crédito: ASA / Divulgação
    Nordeste é região mais afetada pelos processos de seca e desertificação. Crédito: ASA / Divulgação

    Regime global das secas

    A COP de Combate à Desertificação também ainda precisa firmar um mecanismo político de peso equivalente ao das outras conferências globais pelo meio ambiente ─ a Convenção do Clima conta com o Acordo de Paris, que orienta o combate ao aquecimento global, e a Convenção da Biodiversidade tem o Marco Global Kunming-Montreal, para deter e reverter perdas da natureza.

    O que mais se aproxima disso é a proposta de criar um instrumento global de combate às secas. Ele foi defendido em 2024, por países africanos, que esperavam um protocolo juridicamente vinculante, ou seja, com obrigações legais de cumprimento pelos governos. Não houve consenso por causa da resistência de alguns países desenvolvidos, que queriam algo menos rígido.

    Segundo a secretária-executiva Yasmine Fouad, há motivos para otimismo nesta nova rodada de negociações. Segundo ela, desde 2013, o número de países com planos nacionais de seca passou de apenas alguns para mais de 70.

    “Embora continuem avançando as discussões sobre a governança da seca, a COP17 coloca ênfase especial na implementação. Espera-se que a conferência fortaleça as ferramentas práticas, os mecanismos de financiamento e as parcerias necessárias para transformar planos de combate à seca em ações concretas”, diz Fouad.

     


     Caatinga, principal bioma brasileiro ameaçado pela desertificação. Crédito: ASA / Divulgação.
     Caatinga, principal bioma brasileiro ameaçado pela desertificação. Crédito: ASA / Divulgação.
    Caatinga, principal bioma brasileiro ameaçado pela desertificação no Brasil. Crédito: ASA / Divulgação.

    Financiamento

    A diretora-gerente do Mecanismo Global da UNCCD, Louise Baker, aponta o financiamento como um dos principais desafios da conferência. Segundo ela, seriam necessários cerca de US$ 1 bilhão por dia até 2030 para alcançar os objetivos da Convenção de proteção da terra.

    “O investimento atual fica muito aquém desse patamar. O financiamento público desempenha um papel essencial na redução de riscos e na viabilização de fluxos muito maiores de investimento privado. É por isso que o financiamento é um foco central na COP17”, disse Baker.

    Para a executiva, uma das estratégias para ampliar os recursos é aproximar o setor privado da agenda de combate à degradação da terra. Segundo ela, empresas dos setores de alimentos e bebidas, moda, farmacêutico e cosméticos dependem diretamente de matérias-primas produzidas em áreas saudáveis e, por isso, passam a ter interesse econômico na conservação e restauração.

    “Cada dólar investido na restauração de terras pode gerar entre sete e 30 dólares em benefícios econômicos, tornando-a um dos investimentos de maior retorno disponíveis”, afirma.

    “As discussões explorarão como o financiamento misto, as garantias e outros instrumentos podem reduzir os riscos de investimento, juntamente com abordagens comuns de valoração da natureza que podem ajudar governos, bancos de desenvolvimento e investidores privados a canalizar mais capital para a restauração de terras e a resiliência à seca”, complementa.

     


    Da Amazônia à Europa, seca avança e movimenta debates na COP17. Rio seco no Semiárido Nordestino. Crédito: ASA / Divulgação
    Da Amazônia à Europa, seca avança e movimenta debates na COP17. Rio seco no Semiárido Nordestino. Crédito: ASA / Divulgação
    Rio seco no Semiárido Nordestino. Crédito: ASA / Divulgação

    Neutralidade da Degradação da Terra

    Mais de 130 países já adotaram metas voluntárias de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN, na sigla em inglês), que buscam equilibrar a degradação e a restauração do solo, para que a quantidade de terras saudáveis e produtivas se mantenha estável ou aumente. A estratégia segue uma hierarquia: evitar, reduzir e reverter a degradação.

    Segundo a secretária-executiva Yasmine Fouad, as metas não podem ser vistas apenas como soluções para o meio ambiente, mas também como investimentos em economias resilientes, sistemas alimentares mais robustos e um futuro mais seguro para comunidades em todo o mundo.

    “Até 2050, a agricultura precisará produzir pelo menos 50% mais alimentos, mesmo enquanto o mundo continua perdendo cerca de 100 milhões de hectares de terras saudáveis ​​e produtivas a cada ano — uma área ligeiramente maior que o estado de Mato Grosso”, disse Fouad.

    “Visto que as terras agrícolas representam cerca de 60% das terras degradadas em nível global, melhorar a forma como são manejadas é fundamental para alcançar a Neutralidade da Degradação da Terra”, complementou.

     


    Alto Paraíso (GO) -  Queimadas em área de cerrado do município de Alto Paraíso . Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
    Alto Paraíso (GO) -  Queimadas em área de cerrado do município de Alto Paraíso . Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
    Queimadas em área de cerrado do município de Alto Paraíso . Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

    O governo brasileiro deve apresentar à comunidade internacional seu primeiro conjunto de metas da LDN.

    Segundo o diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (DCDE) no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Alexandre Pires, um levantamento realizado em parceria entre órgãos do governo e instituições de pesquisa identificou cerca de 55 milhões de hectares de terras em processo de degradação em 2020.

    “O Brasil tem uma contribuição muito grande em iniciativas para evitar, reduzir ou reverter a degradação. Entre elas, estão políticas de conservação de unidades de conservação, de garantia de direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais”, diz o diretor. “Vamos apontar várias outras iniciativas que estão vinculadas ao conceito de restauração, para que possamos contribuir globalmente com as metas”.

    Participação

    Além das negociações multilaterais, a programação oficial prevê debates sobre restauração de áreas de pastagens, segurança hídrica, sistemas alimentares, saúde dos solos e resiliência à seca, além de fóruns voltados a povos indígenas, comunidades locais, juventude, setor privado e pastoralistas.

    Durante a COP16, em 2024, foi aprovada uma proposta brasileira para a criação do “Caucus Indígena e de Comunidades Tradicionais”. Caucus são espaços oficiais de articulação política e troca de experiências dentro da convenção. Na Mongólia, portanto, será a primeira vez que os indígenas terão esse lugar de destaque na agenda oficial.

    O diretor Alexandre Pires vê isso como um dos grandes avanços do evento.

    “São os povos indígenas e comunidades tradicionais que estão nos territórios semiáridos sendo afetados pela degradação da terra, pela desertificação e pelas secas. Eles precisam ter voz dentro da Convenção”, diz Pires.

    Cobertura na Mongólia

    A partir desta semana, a Agência Brasil acompanha a COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia. A viagem é uma parceria com a UNCCD, que selecionou seis repórteres de diferentes continentes com uma bolsa de jornalismo para cobrir o evento.

     


    Paisagem campestre na Mongólia, sede da COP17 da Desertificação. Crédito: Divulgação UNCCD
    Paisagem campestre na Mongólia, sede da COP17 da Desertificação. Crédito: Divulgação UNCCD
    Paisagem campestre na Mongólia, sede da COP17 da Desertificação. Crédito: Divulgação UNCCD

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Da Amazônia à Europa, seca avança e movimenta debates na COP17

    Da Amazônia à Europa, seca avança e movimenta debates na COP17

    A seca deixou de ser um problema apenas das regiões áridas do planeta e passou a atingir lugares antes considerados menos vulneráveis. Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), a frequência e a duração das secas aumentaram quase 30% desde 2000.

    Essa face da crise climática será um dos temas centrais da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que acontecerá em Ulaanbaatar, na Mongólia, entre este domingo (17) e 28 de agosto. Para a secretária executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, o momento pede urgência na aplicação de soluções concretas nos territórios.

    “A questão já não é reconhecer a seca como um risco global, mas agir cedo o suficiente para evitar que seus impactos se espalhem pelas comunidades, economias e fronteiras”, afirma Fouad em entrevista à Agência Brasil.

    As projeções são de que, até 2050, três em cada quatro pessoas no mundo poderão ser afetadas, enquanto a demanda global por água deve superar a oferta em até 40% até 2030.

    No Brasil, todas as cinco regiões tiveram registros de seca, com diferentes intensidades, em julho de 2026. Pelo menos 157 municípios foram classificados em situação de “seca severa”, o que significa que sofreram queda acentuada de umidade no solo e estresse hídrico na vegetação, com perdas na agricultura. 

    O fenômeno no país é acompanhado pelo Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), e por boletins mensais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden, José Antonio Marengo, explica que o problema deve se intensificar nos próximos meses.

    “O que observamos em todo o país é uma tendência de ressecamento. Vemos a diminuição dos totais de chuvas e o aumento da temperatura. Há um risco de que o desequilíbrio entre precipitação e evaporação leve a situações de agravamento das secas”, analisa Marengo.

    Problema global

    Ao redor do mundo, o Observatório Global da Seca destacou que, em julho, a Europa registrou temperaturas acima da média, com uma onda de calor prolongada. Mas o problema é mais amplo.

    As condições de seca se apresentam de forma mais intensa nas seguintes regiões:

    • Europa: Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Hungria e Romênia; 
    • África: Sul e Centro do continente, como Sudão, Etiópia, Zâmbia e Magadascar;
    • Oriente Médio: Irã e Omã;
    • Ásia: Centro e Sudeste, como Cazaquistão, China e Filipinas.

    O fenômeno pode assumir diferentes formas, como a seca meteorológica, que ocorre quando as precipitações permanecem abaixo da média durante um período prolongado.

    A seca agrícola, por sua vez, reduz a umidade disponível para as plantas e compromete lavouras e pastagens.

    Já a seca hidrológica afeta rios, reservatórios e aquíferos, e provoca impactos sobre o abastecimento humano, a geração de energia, a navegação e a biodiversidade.

     


    Da Amazônia à Europa, seca avança e movimenta debates na COP17. Seca impacta agricultura, alimentação e segurança hídrica no Brasil. Crédito: ASA / Divulgação
    Da Amazônia à Europa, seca avança e movimenta debates na COP17. Seca impacta agricultura, alimentação e segurança hídrica no Brasil. Crédito: ASA / Divulgação
    Seca impacta agricultura, alimentação e segurança hídrica no Brasil. Crédito: ASA / Divulgação

    Impacto desigual

    Não dá mais para tratar o problema como algo isolado, alerta o diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Alexandre Pires.

    “Se pegarmos dados do Cemaden, que faz o monitoramento das secas no Brasil, nos últimos 30 anos, nós tivemos secas severas nas cinco macrorregiões do país”, diz o diretor.

    “É claro que, em determinadas regiões, o problema é mais grave, como é o caso da Região Nordeste e do Norte de Minas Gerais. Entre 2012 e 2017, tivemos uma seca muito impactante no semiárido do ponto de vista das reservas hídricas e da alimentação para os animais”.

    A seca costuma atingir com maior intensidade populações que dependem diretamente dos recursos naturais para sobreviver, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares.

    O caso da Amazônia é emblemático. Com a maior floresta tropical e a maior bacia hidrográfica do planeta, a região passou a enfrentar secas históricas. Em 2023 e 2024, rios de diversos municípios da região atingiram os menores níveis já registrados. Comunidades ficaram isoladas, transporte fluvial foi interrompido, houve dificuldades com o abastecimento de alimentos e de medicamentos.

     


    Tefé (AM) 21/10/2023 – Um indigena obserna o leito do rio Amazonas em Tefé (AM) praticamnete seco.
 Foto: Alex Pazuello/Secom
    Tefé (AM) 21/10/2023 – Um indigena obserna o leito do rio Amazonas em Tefé (AM) praticamnete seco.
 Foto: Alex Pazuello/Secom
    Um indigena observa o leito do Rio Amazonas em Tefé (AM) praticamnete seco, em 2023. Foto: Alex Pazuello/Secom

    Para alertar sobre o tema, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) lançou um boletim no fim do ano passado em que alerta para os efeitos sobre os povos tradicionais da região.

    Segundo o coordenador-geral da Coiab, Toya Manchineri, secas e queimadas ameaçam os territórios e modos de vida que sustentam o planeta.

    “O que vivenciamos não foi uma estiagem isolada, mas um colapso ambiental em curso”, destacou Toya Manchineri quando o boletim foi lançado.

    “A crise climática se manifesta no cotidiano das comunidades. Quando o rio seca, o peixe desaparece, o barco não chega e a floresta, antes úmida, passa a queimar”.

    No monitoramento recente feito pelo Cemaden, os territórios indígenas afetados pela seca severa passaram de três, em junho, para 17, em julho. O órgão destaca o agravamento do problema nos distritos sanitários especiais indígenas de Alto Rio Negro (AM), Parintins (AM), Kaiapó do Pará (PA), Tocantins (TO) e Araguaia (MT e TO).

    Em relação aos assentamentos rurais, houve aumento de duas para 44 áreas afetadas pela seca extrema, e crescimento de 102 para 309 áreas afetadas pela seca severa. Pará, Tocantins, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas concentram a maior parte das áreas afetadas.

     


    Porto Jofre (MT) 17/11/2023 – Detalhe de arvores queimadas durante incêndio florestal que atige o Pantanal.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Porto Jofre (MT) 17/11/2023 – Detalhe de arvores queimadas durante incêndio florestal que atige o Pantanal.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Detalhe de arvores queimadas durante incêndio florestal que atingiu o Pantanal em 2023. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

    Seca relâmpago

    Além de mudanças na frequência e na intensidade, as secas passaram a apresentar diferenças expressivas também na duração. Impulsionadas pelo aquecimento global, essas estiagens severas estão mais longas, explica o pesquisador Humberto Alves Barbosa, coordenador e fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

    Humberto destaca também os impactos identificados mais recentemente de um tipo de seca de curta duração, conhecido como seca-relâmpago.

    “Essas secas costumam ocorrer durante o verão, acompanhadas de aumento do calor, com início rápido e forte intensidade. O fenômeno dura apenas alguns dias ou semanas. Porém, o efeito combinado da redução da cobertura vegetal e do aumento das temperatura durante as secas piora ainda mais a condição de aridez da região”, explica o pesquisador.

    El Niño

    Preocupações sobre a seca aumentaram este ano, com a previsão de chegada de um El Niño mais intenso do que os anteriores. Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o fenômeno costuma alterar a circulação atmosférica em diferentes partes do planeta e modificar a distribuição das chuvas.

    Segundo as previsões mais recentes da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o El Niño deve ficar mais forte entre agosto e outubro de 2026. O padrão esperado de chuvas indica condições mais secas que o normal principalmente na Índia e partes do sul da Ásia, na Austrália Meridional e Oriental, na América Central e Caribe, no Noroeste da América do Sul e no Norte da Europa.

    No Brasil, o fenômeno pode provocar secas mais severas em algumas regiões, alerta o pesquisador Humberto Barbosa.

    “Historicamente, um El Niño de intensidade muito forte está associado à redução das chuvas e ao aumento das temperaturas no Norte, Nordeste e áreas do Centro-Oeste. Ele deve afetar tanto a umidade do solo quanto a vazão dos rios. Estas regiões ficam mais vulneráveis às secas prolongadas ou às secas relâmpagos e às queimadas”, diz Humberto.

    O Programa Mundial de Alimentos (PMA) estima que a seca e os demais impactos climáticos associados ao El Niño podem agravar significativamente a insegurança alimentar em 45 países.

    A análise mais recente aponta que a população em insegurança alimentar aguda pode aumentar de cerca de 225 milhões para 275 milhões de pessoas, caso os impactos previstos se concretizem. Os maiores aumentos são esperados nas Américas Central e do Sul, no Caribe e no Sul da África.

     


    Brasília (DF) 26/08/2024- Brasília amanhece encoberta por fumaça de queimadas.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Brasília (DF) 26/08/2024- Brasília amanhece encoberta por fumaça de queimadas.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
    Brasília amanhece encoberta por fumaça de queimadas em 2024. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

    Seca na COP17

    Em vez de concentrar esforços apenas na resposta às emergências, governos têm sido estimulados a investir em monitoramento, sistemas de alerta precoce, recuperação de áreas degradadas, gestão integrada da água e fortalecimento da capacidade de adaptação das populações.

    A expectativa é que o tema ganhe força na conferência, prevê o diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca.

    “Existe hoje um fórum político, a Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA, na sigla em inglês), da qual o Brasil passou a fazer parte em 2024. A expectativa é que essa articulação influencie as negociações e estimule os países a investir mais recursos para enfrentar as secas, porque esse é um problema que precisa ser tratado antes de virar uma emergência ainda maior”, diz Alexandre.

    Criada durante a COP27 do Clima, em 2022, a IDRA reúne governos e organizações internacionais. A iniciativa busca fortalecer a cooperação entre os países, ampliar o compartilhamento de informações e incentivar investimentos em ações de adaptação.

    Cobertura na Mongólia

    A Agência Brasil vai acompanhar as duas semanas da COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia. A viagem é uma parceria com a UNCCD, que selecionou seis repórteres de diferentes continentes com uma bolsa de jornalismo para cobrir o evento.

    Nos próximos dias, a Agência Brasil publica uma série de matérias com informações sobre a conferência e como os temas debatidos nela afetam o Brasil.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Risco de desertificação no Brasil ameaça segurança hídrica e alimentar

    Risco de desertificação no Brasil ameaça segurança hídrica e alimentar

    Cerca de 39 milhões de brasileiros vivem em locais ameaçados pela desertificação. Entre eles, estão sertanejos, agricultores, povos indígenas, quilombolas, geraizeiros, pantaneiros e pampeiros.

    O termo pode causar estranhamento, já que o país não possui desertos como o Atacama, no Chile, e o Saara, no norte da África. Lugares onde o clima seco e a escassez de água são extremos.

    Desertificação, porém, é um termo mais amplo, que indica o processo de degradação ambiental em que uma terra antes produtiva perde sua capacidade de reter água e sustentar vida. Isso ocorre principalmente por atividades humanas, como desmatamento e agricultura inadequada, e também por variações climáticas. Quanto mais avançado o processo, maior o risco de uma região virar um deserto.

    Cerca de 18% do território brasileiro é composto por Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD), segundo o boletim mais recente da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

    Obstáculos e soluções para o problema estão na pauta de representantes da sociedade civil e de órgãos governamentais do Brasil que participarão da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), na Mongólia, entre os dias 17 e 28 de agosto.

    A coordenadora executiva da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Ivi Aliana, destaca que o problema atinge principalmente populações vulneráveis e comunidades tradicionais.

    “Elas são as primeiras a sentir os efeitos, porque lidam diretamente com os impactos na água e na biodiversidade no território”, diz Ivi.

    Ela reforça, porém, que a degradação da terra não é um problema exclusivo de quem vive nela.

    “Parece um problema distante para alguns, mas a desertificação afeta a produção de alimentos, a segurança hídrica, a economia, influencia no aumento do calor. E tudo isso vai além das áreas degradadas. Tem impactos  tanto no campo quanto nas cidades brasileiras”, explica.


    Balsas (MA), 10/10/2025 – O agricultor familiar Orlando Alves da Silva observa uma das nascentes do Rio das Balsas seca, em Limpeza, nos Gerais de Balsas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
    Balsas (MA), 10/10/2025 – O agricultor familiar Orlando Alves da Silva observa uma das nascentes do Rio das Balsas seca, em Limpeza, nos Gerais de Balsas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
    O agricultor familiar Orlando Alves da Silva observa uma das nascentes do Rio das Balsas seca, em Limpeza, nos Gerais de Balsas, no Maranhão. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

    Dados nacionais

    Entre os anos de 2000 e 2020, a área afetada pela desertificação no Brasil passou de 1,35 milhão para 1,51 milhão de quilômetros quadrados, um aumento de 170 mil km², que equivale à soma dos territórios de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

    O fenômeno atinge principalmente os nove estados do Nordeste, mas chega também ao norte de Minas Gerais e ao do Espírito Santo, ao nordeste do Rio de Janeiro e ao noroeste do Mato Grosso do Sul.

    Nestas áreas, há três tipos de clima: subúmido seco, semiárido e árido. Eles são classificados de acordo com a quantidade de chuva e a evaporação da água, por meio do índice de aridez.

    O subúmido seco tem índice de aridez entre 0,50 até 0,65; o semiárido, entre 0,2 e 0,5; e o árido, entre 0,05 e 0,2. Quando o número fica abaixo de 0,05 tem-se o clima dos desertos, o hiperárido, que ainda não existe no Brasil.

    A primeira região árida do país foi identificada recentemente, em 2023, e abrange 6 mil km² entre Pernambuco e Bahia. A análise foi publicada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

     


    Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade.  Mapa comparativo da evolução da desertificação no Brasil. Crédito: Rodrigo Cunha / Revista Fapesp
    Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade.  Mapa comparativo da evolução da desertificação no Brasil. Crédito: Rodrigo Cunha / Revista Fapesp
    Mapa comparativo da evolução da desertificação no Brasil. Crédito: Rodrigo Cunha / Revista Fapesp

    Caatinga

    Dos seis biomas brasileiros, a Caatinga é a que concentra os níveis mais graves de deterioração do solo: 11% dela está em situação crítica e severa, o que equivale a 100 mil km2. Cerca de 42,6% de sua vegetação nativa já foi suprimida.

    Proteger a Caatinga é fundamental para a biodiversidade, as pessoas que vivem nela e o clima, explica o pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) Aldrin Martin Pérez-Marín, que também coordena o Observatório da Caatinga e da Desertificação (OCA).

    O bioma é monitorado continuamente pelo órgão, em parceria com mais de 30 universidades e instituições nordestinas. Um levantamento conjunto mostrou que a Caatinga aproveita o carbono com uma eficiência de 58%, maior que a de todos os outros biomas brasileiros. Essa contribuição é fundamental na luta contra o aquecimento global, já que o excesso de carbono na atmosfera retém calor e intensifica o efeito estufa.

    “O mais surpreendente está debaixo da terra: 72% de todo esse carbono fica armazenado no solo, cerca de 125 toneladas por hectare, o que faz dela não só um sumidouro ativo, mas um enorme cofre natural de longo prazo. É essa resiliência que explica o seu protagonismo: ela sabe guardar vida e equilibrar o clima mesmo nos cenários mais áridos”, diz Aldrin.

     


    Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade. . Cactos típicos da Caatinga, bioma no Semiárido Nordestino. Crédito: ASA / Divulgação
    Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade. . Cactos típicos da Caatinga, bioma no Semiárido Nordestino. Crédito: ASA / Divulgação
    Cactos típicos da Caatinga, bioma no Semiárido Nordestino. Crédito: ASA / Divulgação

    Um estudo publicado na revista Science of the Total Environment, em 2025, confirmou esse protagonismo. Só em 2022, a Caatinga foi responsável por cerca de 50% de todo o sequestro líquido de carbono do Brasil, compensando parte significativa das emissões nacionais de gases de efeito estufa.

    O pesquisador do Insa alerta que o Brasil precisa brigar para que a Caatinga seja citada explicitamente no texto científico que será negociado durante a COP17. Caso isso não ocorra, o semiárido tropical ficaria fora do radar científico oficial da Convenção até 2030.

    “A Caatinga não é o problema. Ela é parte da solução, para o Brasil e para o planeta. Diante da crise climática, a escolha é por territórios vivos: gente de pé, Caatinga em pé e futuro em pé”, diz Aldrin.

    Políticas públicas

    O Brasil se tornou signatário da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) em 1997, o que significou assumir acordos para prevenir e reverter os efeitos da degradação da terra.

    Em março de 2026, foi lançado oficialmente o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043). O plano prevê o enfrentamento da desertificação como política pública que articula meio ambiente, educação, saúde, assistência social, infraestrutura, acesso à água, inclusão produtiva e inovação tecnológica.

    Outra iniciativa, lançada em junho deste ano, foi o Programa Recaatingar. O biólogo Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (DCDE), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, explica que a meta é a recuperação produtiva de 10 milhões de hectares de terras degradadas do bioma nos próximos 20 anos.

     


    Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade
    Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade
    Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade – ASA / Divulgação

    O foco é promover segurança hídrica, restauração socioprodutiva e adaptação às mudanças climáticas, com base no conhecimento tradicional das comunidades locais.

    “O recaatingamento é uma metodologia que envolve desde a questão física do solo e da agronomia até o trabalho com as comunidades tradicionais, o modo de vida e a forma como elas manejam essa biodiversidade. A gente se inspirou nessas tecnologias sociais de convivência com o semiárido para criar o programa”, explica Alexandre. 

    “Recuperar o solo degradado é um caminho estratégico para garantir trabalho, emprego e renda, ao mesmo tempo em que promove um serviço que ajuda a humanidade a enfrentar os desastres climáticos. É preciso olhar para a potência e a capacidade de resiliência desses territórios”, complementa.

    O pesquisador do Insa, Aldrin Martin Pérez-Marín, atesta a efetividade do recaatingamento. Ele diz que, mesmo antes do programa, a tecnologia social já produziu 36 mil hectares em conservação, 2 mil hectares em recuperação ativa, 15 sistemas de agrocaatinga, 31 planos de manejo implementados e mais de 280 enxames de abelhas nativas de volta à paisagem.

    “O manejo agrossilvipastoril da Caatinga consegue quadruplicar a oferta de forragem sem derrubar o bioma. Os sistemas agroflorestais elevaram a biomassa em torno de 85% e chegam a segurar 100 toneladas de solo por hectare a cada ano contra a erosão”, diz Aldrin. “A rotação de culturas e as barragens subterrâneas devolvem água, carbono e fertilidade a esse cofre subterrâneo”.

    Perspectivas e soluções

    A Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), formada por mais de 3 mil organizações da sociedade civil, atua há mais de 25 anos na promoção de soluções e tecnologias que ajudam as comunidades impactadas pela desertificação.

    Um dos principais exemplos de atuação da ASA é no desenvolvimento de programas de captação de água da chuva. Parte deles foca na construção de cisternas e pequenas barragens para garantir que famílias tenham acesso à água potável, além de garantir água para produção de alimentos e consumo dos animais.

     


    Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade. Cisterna construída com ajuda da ASA para garantir que famílias tenham acesso à água potável. Crédito: ASA / Divulgação
    Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade. Cisterna construída com ajuda da ASA para garantir que famílias tenham acesso à água potável. Crédito: ASA / Divulgação
    Cisterna construída com ajuda da ASA para garantir que famílias tenham acesso à água potável. Crédito: ASA / Divulgação

    Outras iniciativas são focadas no fortalecimento de sementes adaptadas ao clima da Caatinga e técnicas agrícolas que respeitam a biodiversidade do bioma.

    “Não vai ser helicóptero jogando sementes em um território desabitado que vai recuperar essa área. O combate à desertificação passa pela agricultura familiar, pela agroecologia e pelas pessoas vivendo e cuidando desses territórios”, diz Ivi Aliana, coordenadora do ASA.

    Cobertura da COP17

    Agência Brasil vai acompanhar as duas semanas da COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia. A viagem é uma parceria com a UNCCD, que selecionou seis repórteres de diferentes continentes com uma bolsa de jornalismo para cobrir o evento.

    Nos próximos dias, a Agência Brasil publica uma série de matérias com informações sobre a conferência e como os temas debatidos nela afetam o Brasil.

     


    Paisagem campestre na Mongólia, sede da COP17 da Desertificação. Crédito: Divulgação UNCCD
    Paisagem campestre na Mongólia, sede da COP17 da Desertificação. Crédito: Divulgação UNCCD
    Paisagem campestre na Mongólia, sede da COP17 da Desertificação. Crédito: Divulgação UNCCD

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • COP17 da Desertificação chega à Mongólia, país assolado pelo problema

    COP17 da Desertificação chega à Mongólia, país assolado pelo problema

    A partir da próxima segunda-feira (17), representantes de 196 países e da União Europeia vão se reunir em Ulaanbaatar, capital da Mongólia, para buscar soluções contra uma crise ambiental que compromete a biodiversidade, a segurança alimentar e a sustentabilidade hídrica de todo o planeta.

    A 17ª Conferência das Partes (COP17) é o evento principal da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD, na sigla em inglês), em que são discutidas a degradação dos solos e a seca. O tema deste ano é “Restaurando a terra. Restaurando a esperança”.

    Até o dia 28 de agosto, participarão dos debates chefes de Estado, ministros, membros da comunidade científica, organizações da sociedade civil e representantes do setor privado. Duas mulheres têm papel destacado de liderança: a egípcia Yasmine Fouad, secretária-executiva da UNCCD, e a ministra das Relações Exteriores da Mongólia, Battsetseg Batmunkh, presidente designada para a COP17.

    O Brasil será representado por diferentes lideranças do setor público e privado especializadas nos temas da conferência. Um espaço na área principal da conferência (Blue Zone), o Pavilhão Brasil, sediará debates, apresentará tecnologias, divulgará políticas públicas, projetos de ONGS e de instituições de pesquisa.

    No país, a desertificação atinge regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, com destaque para o bioma Caatinga, que abrange todos os estados do Nordeste e parte de Minas Gerais. Dados mais recentes apontam que 18% do território nacional está sujeito à desertificação e que cerca de 39 milhões de pessoas são impactadas pelo problema.

    Desertificação é um tipo de degradação da terra que ocorre em regiões mais secas, onde a quantidade de chuva anual é menor do que a evaporação. Quando esse processo acontece, o solo e o ecossistema perdem progressivamente a capacidade produtiva, biológica e econômica. O fenômeno é causado principalmente por atividades humanas, como desmatamento e agricultura inadequada, e variações climáticas.

     


     Caatinga, principal bioma brasileiro ameaçado pela desertificação. Crédito: ASA / Divulgação.
     Caatinga, principal bioma brasileiro ameaçado pela desertificação. Crédito: ASA / Divulgação.
    Caatinga, principal bioma brasileiro ameaçado pela desertificação. Crédito: ASA / Divulgação.

    Por que Mongólia?

    A COP17 acontece no Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores (IYRP 2026, na sigla em inglês), iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) para aumentar a visibilidade dos ecossistemas e desses povos, que são estratégicos na segurança alimentar e na conservação ambiental. O tema será destaque nos debates da conferência.

    Para marcar a transição entre a última conferência e a atual, uma caravana com cientistas, pesquisadores e representantes oficiais da UNCCD percorre o trajeto histórico entre Riade, na Arábia Saudita (sede da COP16), e Ulaanbaatar, na Mongólia (sede da COP17). A expedição começou em maio e culmina com o início do evento.

     


    Paisagem campestre na Mongólia, sede da COP17 da Desertificação. Crédito: Divulgação UNCCD
    Paisagem campestre na Mongólia, sede da COP17 da Desertificação. Crédito: Divulgação UNCCD
    Paisagem campestre na Mongólia, sede da COP17 da Desertificação. Crédito: Divulgação UNCCD

    A iniciativa busca reviver simbolicamente as antigas rotas de conectividade nômade que, desde o Século 2 a.C., foram estabelecidas por povos pastoralistas que cruzavam as estepes eurasianas em busca de água e forragem para seus rebanhos. Historicamente, essas rotas não eram apenas caminhos comerciais, mas corredores de intercâmbio cultural.

    Ao longo do percurso, a jornada tem destacado os esforços de diversos países no manejo sustentável e na restauração de terras degradadas, servindo como uma plataforma para advogar por maior apoio político e investimentos financeiros.

    A escolha da Mongólia como sede da COP17 é justificada pelo fato de o país ser um epicentro dos impactos globais da desertificação, degradação da terra e seca.

    Atualmente, cerca de 77% do território mongol está afetado pela degradação, uma crise que ameaça o desenvolvimento econômico e o modo de vida de aproximadamente um terço da sua população.

    A Mongólia enfrenta um desastre climático conhecido como dzud, um ciclo de seca severa no verão seguido de invernos glaciais. Entre 2023 e 2024, esse fenômeno causou a morte de mais de 7 milhões de cabeças de gado, devastou a economia rural e forçou a migração de famílias para assentamentos em Ulaanbaatar.

    Programação

    A primeira semana do evento é marcada por sessões de abertura, distribuição de tarefas entre comitês e pela apresentação de minutas de decisão sobre a restauração de terras e a resiliência à seca.

    Também ocorrem fóruns paralelos sobre grupos e temas com demandas específicas, como associações de juventude, organizações de gênero, povos indígenas e comunidades pastoreiras.

    Na segunda semana, estão previstos os chamados eventos de alto nível com os líderes dos países membros da UNCCD, que incluem diálogos ministeriais sobre mecanismos financeiros, metas de combate à degradação da terra, restauração de pastagens naturais e bem-estar de comunidades pastoreiras.

    A programação também prevê quatro dias temáticos para gerar impulso político, mobilizar parcerias e apoiar ações práticas: Finanças (24/08); Água (25/08); Terra e Povo (26/08); Sistemas Alimentares e Saúde do Solo (27/08).

    Panorama global

    Segundo relatórios da UNCCD, a degradação da terra afeta diretamente o bem-estar e a subsistência de 1,5 bilhão de pessoas em todo o mundo. Quase 40% das terras do planeta já estão degradadas, com impactos nos recursos naturais que sustentam quase metade do Produto Interno Bruto (PIB) global.

    Outro problema central debatido na COP17 é a aridificação, quando uma região anteriormente úmida passa a apresentar características permanentes de terra seca. Aproximadamente 77% da superfície terrestre livre de gelo têm enfrentado condições mais secas desde 1990 e a projeção é de que, até o ano 2100, cinco bilhões de pessoas viverão em zonas áridas.

    A secretária-executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, disse à Agência Brasil que a conferência ocorre em um momento em que a seca ocupa, como nunca antes, um lugar de destaque na agenda global.

    “O desafio não é mais reconhecer a seca como um risco global, mas, sim, agir com antecedência suficiente para evitar que seus impactos se propaguem em cascata por comunidades, economias e fronteiras”, analisa Fouad.

     


    Yasmine Fouad, presidente da UNCCD, e Antonio Gutérres, secretário-geral da ONU. Crédito: Divulgação UNCCD
    Yasmine Fouad, presidente da UNCCD, e Antonio Gutérres, secretário-geral da ONU. Crédito: Divulgação UNCCD
    Yasmine Fouad, presidente da UNCCD, e Antonio Gutérres, secretário-geral da ONU. Crédito: Divulgação UNCCD

    O custo combinado da degradação da terra e da seca ultrapassa 878 bilhões de dólares por ano. A UNCCD estima que são necessários 2,6 trilhões de dólares em investimentos até 2030 para restaurar 1 bilhão de hectares de terras degradadas e promover resiliência à seca. Esforço que, segundo a diretora-executiva do Mecanismo Global da UNCCD, Louise Baker, precisa envolver tanto os setores públicos quanto privados.

    “Terras saudáveis ​​vêm sendo cada vez mais reconhecidas como um ativo que gera retornos econômicos, sociais e ambientais mensuráveis. O desafio agora é garantir que o investimento acompanhe esse reconhecimento”, diz Baker.

    Histórico da UNCCD

    A UNCCD faz parte do chamado “Trio do Rio”, um conjunto de três convenções nascidas durante a Rio-92 (Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento). As outras duas são a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB, sigla em inglês) e a Convenção sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, sigla em inglês).

    Os eventos principais das três convenções, as Conferências das Partes (COP), têm frequências diferentes. A COP contra a desertificação e a COP da biodiversidade ocorrem a cada dois anos desde 2001. Ambas estão na 17ª edição. A próxima COP da biodiversidade acontecerá em outubro deste ano, em Yerevan, na Armênia.

    As conferências do clima acontecem anualmente desde 1995. A última, a COP30, foi realizada em novembro de 2025 na cidade de Belém, no Brasil. A próxima está marcada para novembro de 2026, em Antalya, Turquia.

    O Brasil já sediou uma conferência sobre desertificação, em 1999, na cidade de Recife: a COP3. Durante eventos de preparação para o evento deste ano, organizações ambientais e lideranças políticas defenderam que o país se candidate para receber a COP18, em 2028, na Região Nordeste.

    Cobertura da COP17

    A Agência Brasil vai acompanhar as duas semanas da COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia. A viagem é uma parceria com a UNCCD, que selecionou seis repórteres de diferentes continentes com uma bolsa de jornalismo para cobrir o evento.

    Nos próximos dias, a Agência Brasil publica uma série de matérias com informações sobre a conferência e como os temas debatidos nela afetam o Brasil.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original