Tag: mãe Bernadete

  • Filho de Mãe Bernadete desiste de candidatura a deputado federal na BA

    Filho de Mãe Bernadete desiste de candidatura a deputado federal na BA

    A violência que silenciou a voz da liderança quilombola Mãe Bernadete há três anos, e também do filho, Binho do Quilombo, segue provocando medo.

    Diante de possíveis ameaças e do receio de ser mais um silenciado na família, o outro filho da ialorixá, Jurandy Pacífico (foto), anunciou a desistência da candidatura a deputado federal pela Bahia nas eleições deste ano.

    “Por motivo de segurança, pela família está me orientando para não sair, que eu não posso adentrar todos os lugares. Apesar de que o objetivo de me lançar candidato era mudar a realidade das comunidades quilombolas da Bahia, mas o sábio não é aquele que fala, é aquele que escuta. Recuei. Às vezes, é necessário dar um passo para trás para dar dois para frente”, disse.

    A declaração foi dada com exclusividade à Rádio Nacional antes mesmo que o pedido de desistência fosse avaliado pela Justiça Eleitoral.

    Segundo Jurandy, a tentativa de levar a voz dos quilombos para o Congresso Nacional foi interrompida diante do apelo dos próprios familiares.

    Jurandy Pacífico anunciou a renúncia também no perfil oficial nas redes sociais.

    Em carta de próprio punho enviada à Justiça Eleitoral, Jurandy Pacífico classifica a decisão como extremamente difícil e dolorosa.

    Ele cita que havia se candidatado pela melhoria das condições de vida das comunidades tradicionais e quilombolas da Bahia.

    Apesar da desistência, Jurandy menciona na carta de renúncia à candidatura estar certo de que vai seguir nos compromissos com os povos quilombolas e tradicionais.

    “A candidatura pode parar, mas a luta continua. Desistir dessa candidatura nunca foi e nunca será desistir da luta por segurança, seguimos em frente. A decisão pela segurança, pela família, pela sobrevivência é mais uma prova de luta e o legado continua. Hoje eu deixo a disputa eleitoral, mas nunca vamos deixar nossos princípios e nossos ideais”, aponta.

    O secretário de Justiça e Direitos Humanos da Bahia, Felipe Freitas, disse ter recebido a desistência de Jurandy com tristeza e lembrou que a Polícia Militar da Bahia tem uma estratégia de segurança permanente desde o ocorrido para o filho e o neto de Mãe Bernadete.

    “Recebo com muita tristeza a notícia de que Jurandy desistiu da sua candidatura a deputado, no sentido de que é sempre muito ruim que um defensor de direitos humanos, por qualquer razão, se sinta ameaçado, intimidado e se desestimule a colocar as suas ideias à disposição do processo eleitoral. Como secretário, me coloco à disposição de todos os defensores de direitos humanos para que nós possamos acompanhar o processo eleitoral com medidas de proteção e segurança que garantam a integridade e a participação política livre e desimpedida de todas as pessoas”, comenta.

    Jurandy Pacífico é o único filho vivo de Mãe Bernadete, já que o irmão dele, Binho do Quilombo, também foi assassinado devido à luta pelos direitos dos povos dos quilombos.

    Diante desse contexto, Jurandy Pacífico justificou ao TSE que, após ouvir familiares, amigos e companheiros do movimento quilombola, foi aconselhado a priorizar a preservação da própria vida e da segurança.  

    “Depois de muita reflexão, compreendi neste momento que continuar com a candidatura poderia representar uma exposição ainda maior a riscos que não podem ser ignorados”, completou.

    >> Ouça na Radioagência Nacional:

     

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Busca por memória e justiça marca três anos da morte de Mãe Bernadete

    Busca por memória e justiça marca três anos da morte de Mãe Bernadete

    Manter a memória e o legado de Mãe Bernadete vivos e também buscar justiça inspiram familiares, amigos e instituições em defesa dos direitos humanos três anos após o assassinato brutal da liderança quilombola.

    A ativista foi morta com 25 tiros (a maioria no rosto) quando estava no sofá de casa, na comunidade de Pitanga dos Palmares, na cidade de Simões Filho (BA).

    Para marcar a data, uma missa no Santuário do Senhor do Bonfim da Bahia, a Igreja do Bonfim, em Salvador (BA), está marcada para esta segunda-feira (17), às 9h. 

    “Acredito que, apesar dos desafios cotidianos, que existem em muitas comunidades quilombolas, a gente tem feito um bom trabalho ao preservar o legado dela”, afirma o neto, Wellington Pacífico, de 25 anos de idade, em entrevista à Agência Brasil
     


    Simões Filho/ Bahia 19/08/2023 Casa da Mãe Bernadete, liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, assassinada na Bahia. Foto Janaína Neri.
    Simões Filho/ Bahia 19/08/2023 Casa da Mãe Bernadete, liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, assassinada na Bahia. Foto Janaína Neri.
    Casa de Mãe Bernadete, liderança do Quilombo Pitanga dos Palmares, na Bahia. Foto Janaína Neri.

    Feridas

    Wellington estava na casa, com mais duas crianças da família, quando a avó foi assassinada. A morte de Bernadete foi a segunda grande perda do rapaz. O pai dele, o também ativista Flávio Pacífico, o Binho, de 36 anos, também foi assassinado no ano de 2017. 

    “São feridas que não foram reparadas. Para a nossa comunidade, é uma dor perder minha avó, perder meu pai e ainda por cima viver, conviver com a impunidade de não haver justiça.”

    Ele recorda que a avó buscava justiça por Binho. “Apesar dessa injustiça, a gente se esforça para motivar as boas memórias, semear novas expectativas e ressignificar tudo o que aconteceu”. 

    Faz parte dessa ressignificação transformar o luto em luta. “Entendo que eu devo me qualificar cada dia mais para que eu possa ajudar de alguma forma as pessoas.”

    Direito

    Wellington, que está no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH), resolveu ingressar no curso de direito em uma faculdade da Bahia, para lutar por justiça por sua família e pelas comunidades quilombolas no Estado. 

    “Tive minha família destruída, atravessada por tragédias, tendo que se reconstruir a cada dia. Essas vivências me fizeram ter outro olhar para o direito”, afirmou.

    Ele conta que os acusados pela morte da avó estão presos. Dois dos acusados tiveram julgamento em abril. Arielson da Conceição dos Santos (o executor) foi condenado a mais de 40 anos de prisão e Marílio dos Santos, um dos envolvidos no planejamento do crime, recebeu pena de 29 anos e 9 meses. 

    Outros três acusados aguardam julgamento, que deve ocorrer em outubro, segundo estimativa da família. O processo tramita em segredo, e o Tribunal de Justiça da Bahia não confirmou a data do julgamento.

    “A gente espera que a justiça seja feita. Toda vez que falarmos da Mãe Bernadete, a gente tem que falar do Binho do Quilombo. Suspeitos foram presos e depois soltos. Eu diria até que há risco de vitimar outras lideranças.”

    Wellington afirma que é necessário manter esses crimes sob visibilidade no País. “A gente aprende muito quando os holofotes se apagam.”

    Legado

    Ainda na intenção de manter o legado de Mãe Bernadete, a família deve promover um novo festival de cultura e arte quilombola. À frente da iniciativa, está o filho dela, Jurandir Pacífico. Ele diz que o legado da mãe e do irmão o inspira a trabalhar em projetos que mobilizem a própria comunidade e também outros quilombos.

    Ele acrescenta que busca parcerias para os projetos a fim de que nada seja interrompido, como os festivais, os cursos de artesanato e a cozinha solidária. “Estamos buscando políticas públicas para as comunidades quilombolas”.
     


    Salvador (BA), 17.08.2024 - Evento na casa de Dona Bernadete. Foto: Alberto Lima/Divulgação
    Salvador (BA), 17.08.2024 - Evento na casa de Dona Bernadete. Foto: Alberto Lima/Divulgação
    Evento na casa de Mãe Bernadete destaca legado da ativista e pede justiça por sua morte.  Alberto Lima/Divulgação

    Proteção

    A ativista Selma Dealdina, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) conhecia de perto o trabalho de Mãe Bernadete. Ela estará nesta segunda na missa em homenagem à amiga. Emocionada, ela contextualiza que a brutalidade da morte de Bernadete deixa um recado dolorido. 

    “A gente espera mais do Estado Brasileiro na proteção dos defensores e defensoras de direitos humanos, das lideranças quilombolas que fazem a luta pela terra, que fazem a luta para salvaguardar os territórios.”

    A Conaq emitiu nota em que exige a responsabilização dos acusados da morte de Bernadete e medidas efetivas para garantir a segurança das lideranças quilombolas. 

    “Lembramos a mulher que cuidava, liderava, ensinava, acolhia e enfrentava as injustiças. Lembramos a ialorixá que carregava a força de sua ancestralidade”, informa o documento. 

    A entidade acrescenta que Bernadete fez de sua existência uma “trincheira” em defesa de seu povo e que, três anos depois do assassinato, a voz da ativista continua ecoando nos quilombos. 

    “Sua memória está nas mulheres quilombolas que seguem ocupando espaços de decisão, está nas comunidades que resistem às ameaças e lutam pelo direito de existir com dignidade.”

    Cor e gênero

    A historiadora baiana Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, destaca que as mulheres negras, defensoras de direitos humanos, são vítimas do racismo, da violência doméstica e de outras violações. “As desigualdades no Brasil têm cor e gênero. Esse conjunto de violências nos deixa acuada na luta por garantia de direitos.” 

    O racismo, articulado com o sexismo, mantém as mulheres negras em uma condição de vulnerabilidade. Levantamento da Conaq mostrou que o assassinato de Bernadete não foi isolado. Pelo menos 22 mulheres foram mortas entre 2016 e 2024 e outras 33 foram ameaçadas apenas entre os anos de 2021 e 2023. 

    Somente 12,6% dos mais de 1 milhão de brasileiros quilombolas estão em territórios demarcados. “Precisamos estar seguros no nosso território”, diz Selma Dealdina.

    Diante da situação, a Conaq apresentou um plano emergencial de proteção de mulheres quilombolas a fim de ser apresentado ao poder público. “Para que as pessoas não sintam medo de fazer a luta pela terra”, defendeu a ativista da Conaq.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original