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  • Flipelô reúne 330 mil pessoas e bate recorde de público

    Flipelô reúne 330 mil pessoas e bate recorde de público

    No ano em que celebrou sua décima edição, a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) atraiu mais de 330 mil pessoas para a sua programação cultural, superando a expectativa dos organizadores e batendo recorde de público. O evento ocorreu nos dias 5 a 9 de agosto, no centro histórico de Salvador.

    Realizada pela Fundação Casa de Jorge Amado, neste ano a Flipelô reuniu mais de 500 escritores brasileiros, entre eles, Carla Madeira, Milton Hatoum e Itamar Vieira Junior. Também participaram nove convidados internacionais, representantes de cinco países: Estados Unidos, Portugal, Angola, Espanha e Sri Lanka.

    “Realizamos uma edição histórica. Celebramos os dez anos da Flipelô e os 40 anos da Fundação Casa de Jorge Amado, vendo o Pelourinho tomado por leitores, estudantes, escritores, artistas e famílias, afirmou Angela Fraga, presidente da Fundação Casa de Jorge Amado.  

    Segundo Angela, a homenagem a Myriam Fraga e Calasans Neto emocionou o público e reafirmou o compromisso da festa com a literatura, a cultura e a democratização do acesso ao livro. “A Flipelô é uma construção coletiva que pertence ao Centro Histórico, à Bahia e ao Brasil”, disse.

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    A Flipelô foi idealizada pela poeta Myriam Fraga e surgiu com o objetivo de preservar e valorizar a memória do escritor Jorge Amado, a cultura e arte da Bahia, além de estimular a literatura, principalmente entre os jovens.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Memória é fundamental na literatura, diz escritor Milton Hatoum

    Memória é fundamental na literatura, diz escritor Milton Hatoum

    Desde o livro Relato de um Certo Oriente, a memória vem sendo um objeto de investigação do escritor manauara Milton Hatoum. Com Dança de Enganos, publicado no final do ano passado e que encerra sua trilogia O Lugar Mais Sombrio, não foi diferente.

    Seu novo livro é baseado nas memórias e anotações de Lina, a mãe de Martim, personagem principal dos outros dois livros da série: A Noite da Espera e Pontos de Fuga.

    Em Dança de Enganos, Lina assume a voz principal para expor as dores, os impactos e os traumas carregados por famílias que foram dilaceradas pela ditadura militar.

    “A memória na literatura é, vamos dizer, fundamental. Ela é uma espécie de musa tutelar dos escritores. Mas a memória não é algo que está cristalizado no passado. A memória só faz sentido na literatura – e eu acho que na própria vida – quando você traz o passado para o presente e ela adquire um significado mais forte. Porque tudo que nós vivenciamos hoje tem a ver com o nosso passado, não apenas recente, mas distante também”, disse ele a jornalistas, antes de participar de uma mesa promovida pela Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) no Museu Eugênio Teixeira Leal, em Salvador.

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    Em sua trilogia O Lugar Mais Sombrio, Hatoum trata dos dramas familiares no período da ditadura militar brasileira.

    “A trilogia O Lugar Mais Sombrio fala basicamente disso, de um grupo de jovens, de personagens jovens, que, enfim, passaram a infância, a juventude e uma parte da vida adulta durante um período de opressão, de autoritarismo, de brutalidade, de repressão e de censura. Isso é um tema tratado nesses três romances, mas não é o tema principal”, disse o escritor.

    O tema principal, esclareceu, é a relação familiar.

    “E esse último volume é o livro da mãe, que é um livro de memórias, justamente em que ela praticamente fala sobre a família, sobre ela e descobre coisas muito surpreendentes – e por isso o título é Dança de Enganos. Ela viveu durante um período da vida dela movida por enganos, por falsidades. E então ela descobre coisas que só mesmo essa presença da memória faz com que ela tenha consciência do que ela é”, explicou.

    Academia de Letras

    Milton Hatoum é um dos mais importantes escritores da literatura brasileira contemporânea e recentemente tomou posse como novo membro da Academia Brasileira de Letras.

    “Por acaso, sou o primeiro escritor da Amazônia na Academia Brasileira de Letras. Mas, enfim, continuo a fazer o que eu venho fazendo há mais de 35 anos, que é dar palestras, falar basicamente sobre literatura, ler muitos livros e escrever alguns poucos”, disse.

    Vencedor de diversos prêmios literários e até cotado em listas de apostas para o Nobel de Literatura, sua presença na Flipelô lotou o auditório do museu. Ele começou sua fala dizendo que sua trilogia foi escrita como uma espécie de “vingança” ao que aconteceu no Brasil.

    “Foi também uma vingança. Quem da minha geração participou do movimento estudantil ou participou ativamente da luta contra a ditadura, quem não perdeu amigos ou não teve um amigo preso, foi submetido à tortura”.

    O escritor contou que para escrever os livros recebeu diários e relatos de amigos que foram presos e torturados durante a ditadura.

    “E eu li muitas vezes chocado porque são relatos muito duros, de uma crueza assim incrível e impressionante. Mas eu usei muito pouca coisa desse material que eu li, porque eu queria, a partir do que li, inventar. Porque esse é o grande pilar do romance, a imaginação”.

    Parte dessa trilogia, reforçou, marca seu posicionamento sobre a atualidade, quando começaram a surgir vozes no Brasil pedindo a volta daquele período de autoritarismo.

    “Foi o momento em que eu encontrei para também me posicionar. Quer dizer, não como um texto de denúncia porque eu não aprecio muito isso, nem também de uma forma didática, mas eu mudei muita coisa sobretudo entre o segundo e o terceiro volumes [da trilogia]. Eu reescrevi muitas coisas em função dessa catástrofe política que se abateu sobre o Brasil. Como é que eu vou definir essa gente? São absolutamente facínoras”.

    Para ele, um dos remédios para esse momento atual é a empatia.

    “A empatia também serve para a crise que nós estamos vivendo. Porque ela é exatamente o contrário, o oposto do egotismo. Uma pessoa empática integra as suas necessidades básicas ou vitais com o coletivo, com a necessidade dos outros. E é isso que falta”, refletiu.
     


    Salvador (BA), 08/08/2026 - O escritor Milton Hatoum participa da mesa A palavra, a memória e o tempo: um encontro sobre literatura, com mediação de Rodrigo Casarin, no Museu Eugênio Leal, durante a 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho - Flipelô. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
    Salvador (BA), 08/08/2026 - O escritor Milton Hatoum participa da mesa A palavra, a memória e o tempo: um encontro sobre literatura, com mediação de Rodrigo Casarin, no Museu Eugênio Leal, durante a 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho - Flipelô. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
    Escritor Milton Hatoum na mesa A Palavra, a Memória e o Tempo: um Encontro sobre Literatura, com mediação de Rodrigo Casarin, no Museu Eugênio Leal, durante a 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho – Flipelô – Rovena Rosa/Agência Brasil

    Educação

    Ao responder perguntas feitas pelo público presente, Hatoum reforçou a importância da educação. Segundo ele, o desmonte da escola pública teve início com a ditadura militar e agora ela precisa ser reconstruída: “Isso seria fantasticamente um ato patriótico, de formar cidadania e de dar condições de igualdade a todos da escola pública.”

    Ao falar sobre educação na Flipelô, ele chegou a recordar da professora que o alfabetizou, Maria Luiza Freitas Pinto, personalidade que ele também citou em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.

    “Pode parecer um pouco piegas, mas eu vou contar. Quando eu publiquei meu primeiro livro, eu morava em Manaus, em 1989. E ela estava na fila [para autógrafos]. Ela chegou, abriu a bolsa e disse: ‘vou te mostrar uma coisa’. Aí ela tirou um papel amarelo, desdobrou e disse: ‘Essa é a sua primeira redação. Eu guardei porque eu achava que você ia se tornar um escritor’. Ela morreu aos 104 anos. E até os 100 anos, ela ia aos lançamentos do meu livro”.

    A décima edição da Flipelô começou na última quarta-feira (5) e termina neste domingo. Clique aqui e saiba mais sobre a festa.

    *Repórter e fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026.

     

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Redes sociais ajudam a despertar interesse por livros, diz escritora

    Redes sociais ajudam a despertar interesse por livros, diz escritora

    Autora de sucessos como Tudo é Rio, A Natureza da Mordida e Véspera, a escritora mineira Carla Madeira diz que “livro é uma ocasião de conversar”.

    Escritora de ficção mais lida do Brasil, com mais de 1 milhão de cópias vendidas, ela esteve em Salvador, na noite deste sábado (8), para falar a um grande público que se formou no Largo do Pelourinho, durante a programação da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô).

    Fenômeno de vendas, ela celebrou o fato de mais brasileiros estarem lendo e também comentando sobre livros, em geral – principalmente por meio das redes sociais e clubes de leitura.

    “As pessoas estão descobrindo que é legal conversar sobre o que elas leem, concordar, discordar, discutir, entrar com outras vozes, cruzar livros, cruzar informações, criticar, aplaudir, está tudo valendo. E isso é maravilhoso porque é um exercício de troca e tem uma riqueza de ampliar a consciência”, reforçou.

    Para ela, a ampliação dos clubes de livros e de festivais de literatura ajuda a aumentar o interesse pela leitura.

    “Isso está sendo festejado, está sendo ampliado. E as redes sociais têm um papel superimportante nisso”, completou.

    No entanto, apesar do maior interesse pelos livros, a escritora acredita que o brasileiro ainda lê pouco, no universo de um país com 220 milhões de pessoas: 

    “Quando se confrontam os números do mercado editorial a esse dado demográfico, não há como negar que o brasileiro lê pouco. Mas tem muitas questões envolvidas nisso que vão desde a educação formal e o incentivo à leitura até o acesso ao livro e locais para se ler”, disse ela à reportagem.

    >> Clique aqui e confira a cobertura da Agência Brasil na Flipelô 2026

    Políticas públicas

    Em entrevista à Agência Brasil, pouco antes de conversar com o público da Flipelô, a escritora ressaltou que é importante haver políticas públicas para incentivar e aumentar o acesso aos livros.

    Em 2024, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, apontou que 47% da população com 5 anos ou mais se declarou leitora no Brasil, o equivalente a cerca de 93,4 milhões de pessoas. Mas a maioria, 53%, não havia lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores.

    “A gente está falando de uma realidade que é muitas vezes diferente de uma certa bolha ali que tem condição de ter acesso a livro, que tem uma casa ou que tem um quarto, que tem uma luz à noite adequada. E aí vai um monte de questões sociais que eu acho que tem impacto sobre isso”, acrescentou.


    Salvador (BA), 08/08/2026 - A escritora Carla Madeira participa do bate papo Elas por elas: Astrid Fontenelle entrevista Carla Madeira, durante a 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho - Flipelô, no Largo do Pelourinho, centro histórico da capital baiana. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
    Salvador (BA), 08/08/2026 - A escritora Carla Madeira participa do bate papo Elas por elas: Astrid Fontenelle entrevista Carla Madeira, durante a 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho - Flipelô, no Largo do Pelourinho, centro histórico da capital baiana. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
    Escritora Carla Madeira participa do bate papo Elas por Elas: Astrid Fontenelle entrevista Carla Madeira, durante a 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho – Flipelô, no Largo do Pelourinho, centro histórico da capital baiana. – Rovena Rosa/Agência Brasil

    Novo livro

    Durante a mesa na Flipelô, que atraiu um grande público para o Largo do Pelourinho, a escritora mineira contou que seu novo livro Quando será lançado ainda neste mês.

    A obra aborda a história de uma mãe que denuncia seu próprio filho à polícia e foi escrita no momento em que Carla Madeira vivenciava três lutos em sequência: a morte de sua mãe, de seu psicanalista e de sua sócia.

    “Quando começou muito caoticamente. Não tem nada a ver com essa história, com esse luto, eu não faço autoficção. Mas nesse período eu comecei a ler e comecei a querer uma linguagem para dar conta do real. Acho que toda emoção está no corpo. Todo corpo afetado, perturbado, ele quer buscar retornar um estado de equilíbrio, de regularidade. Então, qual é o recurso que ele tem? A linguagem. A gente vai lá na linguagem para reorganizar o corpo”.

    O novo livro, contou ela, fala sobre uma mãe doente que espera pelo reencontro com seu filho.

    “Ela está para morrer e espera rever esse filho que ela não vê há 20 anos. Nessa espera, a gente começa a conhecer o que aconteceu antes, em 1986, que é aquele período em que o Brasil volta a ter eleições diretas. O livro se passa nesse período, com as heranças da ditadura ainda ali presentes”.

    Este é, segundo Carla Madeira, mais um livro sobre um tema que lhe é muito caro: a maternidade.

    “A maternidade é uma coisa que está muito presente nos meus livros. Não só a maternidade, mas essa ideia da família como um lugar fundante, um primeiro lugar que nos recebe no mundo e que vai ser determinante – para o bem ou para o mal. É ali onde acontecem os primeiros pactos civilizatórios. É onde começamos a ter nossa primeira visão de mundo”.

    A décima edição da Flipelô começou na última quarta-feira (5) e termina neste domingo. Clique aqui e saiba mais sobre a festa.

    *A repórter e a fotógrafa viajaram a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flipelô 2026.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Bethânia Amaro estreia no romance, dando voz a profissionais do sexo

    Bethânia Amaro estreia no romance, dando voz a profissionais do sexo

    A transformação da Ladeira da Montanha, que liga as cidades Alta e Baixa em Salvador (BA), do passado boêmio até a condição atual de abandono, foi o ponto de partida para que a escritora Bethânia Pires Amaro buscasse a história de mulheres que tiveram papel central na região, entre as décadas de 1950 e 1970. Elas eram profissionais do sexo, quando o local era reduto da boemia e da vida noturna, e acabaram invisibilizadas na memória oficial.

    “Essas mulheres tinham sido o coração daquela região, daquele centro histórico, e não havia nada na voz delas, não havia nada mesmo. Foi uma invisibilização da existência dessas mulheres”, disse a escritora.

    Em Ressalga, seu romance de estreia, Bethânia retoma os tempos de efervescência da região, que reunia artistas, intelectuais e políticos, e constrói uma narrativa inspirada na trajetória dessas mulheres. A obra é permeada por acontecimentos históricos do país, como a morte de Getúlio Vargas, e figuras reais, como o médium Zé Arigó.

    “A ideia é que o leitor se sentisse transportado para Salvador e para o Brasil dos anos 50, 60, 70, e que a história [do livro] se mostrasse a ele sob esse aspecto, uma história verossímil, que de fato era muito semelhante ao que estava acontecendo no país naquele momento”, explicou a escritora.

    Em entrevista à Agência Brasil, Bethânia falou sobre a pesquisa que deu origem ao romance, o objetivo de devolver protagonismo às mulheres invisibilizadas pelos registros históricos e a importância de apresentar a obra durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), que será realizada de hoje (5) a domingo (9) no Centro Histórico de Salvador, cidade onde a história acontece. Durante o evento, ela participa de bate-papo na Casa Motiva e na Casa Odisseu, no próximo sábado (7).

    A escritora teve seu primeiro livro, Ninho, vencedor dos prêmios Jabuti, APCA e Sesc de Literatura, todos na categoria Contos.

    Confira os principais trechos da entrevista.

    Agência Brasil: como surgiu a ideia do livro Ressalga?

    Bethânia: eu cresci em Salvador e, morando na cidade, eu sabia que a Ladeira da Montanha havia sido um dos centros da grande boemia na cidade, dos anos 1950 até os anos 1970, principalmente. Isso sobreviveu muito no imaginário da cidade, das pessoas que circulavam por ali. Atualmente a Ladeira da Montanha está completamente desmoronada, fantasmagórica, uma rua realmente bastante arruinada, no sentido mais literal possível, os prédios estão em ruínas. E eu queria entender como tínhamos chegado de um lugar até o outro.

    Agência Brasil: você decidiu se aprofundar em algumas personagens. Quem são elas?

    Bethânia: decidi contar essa história sob o ponto de vista das mulheres [profissionais do sexo] que trabalhavam ali. Durante a pesquisa, descobri que Jorge Amado ia escrever um livro sobre o cotidiano das mulheres que trabalhavam na Ladeira da Montanha.  Ele havia chegado a encomendar uma mostra de fotografias de Flávio Damm para um projeto de livro que seria intitulado Mulher Dama.

    Esse livro nunca foi escrito em razão da repressão que se seguiu ao Ato Institucional número 5 (AI-5), durante a ditadura militar. As imagens ficaram engavetadas por mais de 50 anos, até que houve uma mostra delas em Salvador, em 2018. Foi a primeira vez que essas fotos saíram da sombra. Tudo isso só me mostrou com mais segurança que havia uma história ali a ser contada.

    Agência Brasil: foi difícil encontrar informações sobre essas mulheres?

    Bethânia: quando fiz a pesquisa histórica, encontrei muito material, mas sempre sob uma lente masculina. Havia muitas biografias de grandes homens. A Assembleia Legislativa da Bahia tem um trabalho de preservação da memória de grandes personalidades do estado. Ali há um conjunto de biografias, livros de entrevistas, quase na totalidade com homens.

    Foi por meio das lembranças desses homens e das biografias deles, ali pelos cantos dessas biografias e entrevistas, que fui reconstruindo o mosaico da vida dessas mulheres, porque elas não constaram da historiografia oficial, elas foram realmente apagadas em termos de registro histórico. Só sobreviveram na memória e na voz desses homens que frequentavam aqueles espaços e se lembravam delas. 

    Isso foi algo que me assombrou muito quando comecei a fazer essa pesquisa: essas mulheres [profissionais do sexo] tinham sido o coração daquela região, daquele centro histórico, e não havia nada na voz delas, não havia nada mesmo. Foi uma invisibilização da existência dessas mulheres.

    Agência Brasil: como você trabalhou a história delas na obra?

    Bethânia: tradicionalmente, a mulher ficava muito restrita, inclusive na literatura, a [determinados] papéis. Então, ela era a esposa, a amante, a puta. Abordagens que normalmente eram bastante reducionistas. Quando a gente recupera o protagonismo da mulher como aquela que vai contar a sua própria história, devolve a voz a essas mulheres e as coloca no centro de suas próprias narrativas. Acredito que isso permite um olhar muito mais sensível, não estereotipado, e que não reduza essas mulheres às violências que elas sofreram.

    Isso também foi uma grande preocupação no meu trabalho: celebrar a existência delas e não reduzi-las aos abusos que aconteciam ali, como de fato aconteciam, e que elas pudessem aparecer com toda a sua personalidade, tanto para o bem quanto para o mal. São personagens densas, complexas, e o leitor é colocado diante de situações desconfortáveis e de escolhas muito difíceis que essas mulheres precisavam fazer.

    Agência Brasil: como transformar tudo isso em ficção? 

    Bethânia: eu queria resgatar essa história, mas, ao mesmo tempo, fazer um trabalho ficcional. O livro é metaficcional. Conta a história de três gerações de mulheres na Bahia. Em especial, de Graça, que vai se tornar a maior cafetina da cidade. Essa personagem foi muito inspirada na história de prostitutas que existiram, trabalharam ali e tiveram que desenvolver muitas estratégias de existência para sobreviver à violência do seu tempo.

    Vou destacar duas: Maria Pires, que ficou muito conhecida na capital à época por oferecer 50% de desconto para estudantes, e Maria da Vovó, que comandou um cabaré que reunia até 60 [mulheres] nas noites mais cheias e revolucionou o mercado sexual naquela época. Ela ficou muito conhecida, inclusive por enfrentar constantemente a violência policial que era dirigida contra essas mulheres.

    Agência Brasil: o contexto histórico da época foi mantido?

    Bethânia: há uma série de personalidades que o leitor certamente irá reconhecer, passando pelo suicídio de Getúlio Vargas, pela ascensão ao poder de Juscelino Kubitschek. Até outras não tão conhecidas, como o médium Zé Arigó, por exemplo, que realizava cirurgias espirituais no Brasil naquele período, e o delegado de costumes da capital, Almir Araújo, que está mencionado no livro.

    A ideia é que o leitor se sinta transportado para Salvador e para o Brasil dos anos 50, 60, 70 e que a história se mostre a ele sob esse aspecto, uma história verossímil, que de fato é muito semelhante ao que estava acontecendo no país naquele momento. O trabalho é ficcional, porém com esse grande substrato histórico.

    Agência Brasil: em breve, você participará da Flipelô. Como você se sente ao apresentar o livro justamente em Salvador?

    Bethânia: estou muito ansiosa por essa participação na Flipelô, um festival lindíssimo que já acompanho há vários anos. Em especial, porque Ressalga se passa, em grande parte, no centro histórico de Salvador, exatamente onde ocorre a Flipelô. É literalmente o território de onde a história surgiu.

    “A história da Bahia, que é muito celebrada na Flipelô, e a literatura de grandes autores baianos como Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, para citar apenas dois, serviram de grande referência para o meu trabalho. São autores que, quando eu era criança, me mostraram que as histórias ali ao meu redor, do lugar onde eu vivia, também mereciam ser contadas, numa época em que a gente chegava às livrarias e só tinha livro estrangeiro, praticamente. Poder apresentar esse livro na Bahia, no centro histórico, é extremamente especial”.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Livro inédito infantil da poeta Myriam Fraga será lançado na Flipelô

    Livro inédito infantil da poeta Myriam Fraga será lançado na Flipelô

    Mais de 150 espaços públicos e privados do centro histórico de Salvador vão abrigar, a partir desta quarta-feira (5), a décima edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô). A expectativa dos organizadores é que cerca de 250 mil pessoas transitem pelas ruas do Pelourinho para curtir a programação do evento, considerado a maior festa literária da Bahia.

    A Flipelô vai promover uma intensa agenda cultural formada por mesas de debates, bate-papos, lançamentos de livros, saraus, recitais, exposições, oficinas e apresentações teatrais e musicais. A programação tem início na noite de hoje com uma apresentação musical gratuita da cantora e compositora Bellô Veloso, no Largo do Pelourinho.

    O evento ocorre desde 2017 e chega à décima edição neste ano. Inspirada na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a Flipelô é realizada pela Fundação Casa de Jorge Amado, que completa 40 anos de existência. A festa, que foi idealizada pela poeta Myriam Fraga (1937-2016), surgiu com o objetivo de preservar e valorizar a memória do escritor Jorge Amado, a cultura e arte da Bahia e também estimular a literatura, principalmente entre os jovens.

    Como forma de celebrar os dez anos de existência e prestar uma homenagem especial à sua idealizadora, a Flipelô vai promover neste ano o lançamento de um livro infantil de poesias da escritora e poeta baiana.


    Brasília - 04/08/2026 - Livro inédito infantil da poeta Myriam Fraga será lançado na Flipelô. Foto: Divulgação
    Brasília - 04/08/2026 - Livro inédito infantil da poeta Myriam Fraga será lançado na Flipelô. Foto: Divulgação
    Livro inédito da poeta Myriam Fraga será lançado na Flipelô – Foto: Divulgação

    Chamado de Tem Cardume no Meu Aquário, o livro reúne poemas inéditos de Myriam Fraga e é dedicado à primeira bisneta dela, Marina. A obra foi ilustrada pelo artista visual Leo Dantas, designer da Flipelô, e será lançada no próximo sábado (8), às 10h30, no Espaço Infantil Mabel Velloso, na Praça das Artes.

    “A novidade da Flipelô é este livro infantil e inédito, com texto de Myriam Fraga, que a gente guardou no acervo dela”, disse a presidente da Fundação Casa de Jorge Amado, Angela Fraga, filha da escritora.

    Em entrevista à Agência Brasil, ela destacou que o livro conta também com uma parte toda interativa, o que deve aproximar ainda mais as crianças do universo criado pela poeta. “Você pode baixar o áudio de uma canção do texto por meio de um QRCode. Além disso, há também um incentivo para as crianças desenharem. No final do livro, há um espaço para que elas possam criar seus próprios personagens, inspirados naquela obra.”

    A festa

    Mais de 500 escritores brasileiros e nove internacionais deverão estar presentes na Flipelô deste ano, tais como Ana Maria Gonçalves, Itamar Vieira Júnior, Carla Madeira, Milton Hatoum, Tracy Mann e Pablo Fidalgo. Também vão marcar presença no evento o escritor e humorista Gregório Duvivier, o cantor Chico Chico, a apresentadora e jornalista Astrid Fontenelle e a jornalista e escritora Eliana Alves Cruz, apresentadora do programa Trilha de Letras, da TV Brasil.

    Além da literatura, o evento também contempla três rotas, uma gastronômica, uma de museus e outra de artes, onde galerias, museus e ateliês promovem uma programação especial para receber o público.

    A programação completa da Flipelô pode ser acessada no site oficial da festa literária.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original