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  • Educação é prioridade para moradores de favelas do Rio nas eleições

    Educação é prioridade para moradores de favelas do Rio nas eleições

    No estado do Rio de Janeiro, 12,8 milhões de eleitores estão aptos a ir às urnas em outubro. Desses, 2,1 milhões vivem em uma das 1.724 favelas fluminenses, segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados mostram que essas áreas, apesar de antigas, ainda enfrentam maiores dificuldades de urbanização e de acesso a serviços e políticas públicas, o que evidencia a desigualdade na presença do Estado nesses territórios.

    Na cidade do Rio, por exemplo, 1,3 milhão de pessoas moram em uma das 813 favelas, áreas com menos casas ligadas à rede de esgoto e água e menor cobertura da coleta de lixo, embora não sejam regiões homogêneas, como explica a professora de serviço social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Eblin Farage. Uma das principais estudiosas do tema, ela coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Favelas e Espaços Populares (NEPFE).

    Com a proximidade da troca de governantes, moradores de favela cariocas revelam à Agência Brasil demandas prioritárias para as comunidades, como melhorias na mobilidade, educação, cultura, lazer, saúde e participação social. A segurança, uma preocupação na visão deles, reflete a ausência de ações nessas áreas, embora a violência e as operações policiais sejam um problema permanente.

    Letícia Vitória Guimarães, de 16 anos, é moradora do Complexo do Alemão, na zona norte. Envolvida em uma série de iniciativas comunitárias, como os coletivos Criar, de jovens, e o Mulheres em Ação, ela irá às urnas pela primeira vez em outubro.
     


    Rio de Janeiro (RJ), 31/08/2026 – A ativista e pesquisadora Letícia Vitória Silva Guimarães posa para fotografia no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
    Rio de Janeiro (RJ), 31/08/2026 – A ativista e pesquisadora Letícia Vitória Silva Guimarães posa para fotografia no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
    A ativista e pesquisadora Letícia Vitória Guimarães é moradora do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio – Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

    Para escolher em quem votar, a jovem revela que considera perfis “envolvidos com as pautas negras, com os direitos humanos e com a população”. Na visão dela, o candidato ou candidata também precisa saber dialogar.

    “Muitas vezes, [governantes] chegam com respostas prontas, sem saber o que queremos, como achamos melhor, então, precisa [ser alguém] disposto a ouvir”, frisou Letícia, que integra ainda o Conselho Estadual da Criança e do Adolescente, além de ser bolsista de um programa para jovens talentos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

    A jovem também elenca como prioridade propostas para mobilidade. O acesso à cidade, frisa, é um desafio para moradores de áreas periféricas. “Hoje você não tem um ônibus que saia do Alemão ou de qualquer favela [da zona norte] para zona sul. Eu sou jovem, ir à praia é uma demanda real, de direito ao lazer”, disse, afirmando que a falta de linhas de ônibus também dificulta o acesso a empregos.

    Trabalho

    Programas como o Jovem Aprendiz não cobrem os custos com viagens de dois, até três ônibus, e a alimentação de quem passa o dia fora, afirma. “Os valores [de repasse] são baixos, hoje, R$ 20 não pagam nem uma quentinha”, criticou Letícia, sobre a política que busca inserir jovens de 14 a 24 anos no mercado de trabalho.

    Da maior favela do Brasil, a Rocinha, com 72 mil habitantes, a jornalista Isabelle Rodrigues Trindade, de 26 anos, se preocupa com a ausência de oportunidades profissionais. Ela gostaria de trabalhar na área, mas não encontra vagas. Formada há dois anos na PUC-RIO, ela já trabalhou no portal de notícias da Rocinha, o Fala Roça, mas agora atua como agente cultural, em um bairro próximo.

    Segundo a jovem, os moradores de favelas também estão de olho nas propostas para emprego e renda, sendo o fim da escala 6×1 uma prioridade.

    “É muito difícil conciliar trabalho, família e estudo com essa rotina, principalmente, por causa dos grandes deslocamentos, caso das pessoas que moram em favelas”, analisou. O regime de trabalho, avalia, também retira da juventude tempo de qualificação e de lazer.


    Rio de Janeiro (RJ), 03/09/2026 - A jornalista Isabelle Trindade fala sobre a proposta dos candidatos para as periferias do Rio de Janeiro. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
    Rio de Janeiro (RJ), 03/09/2026 - A jornalista Isabelle Trindade fala sobre a proposta dos candidatos para as periferias do Rio de Janeiro. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
    A jornalista Isabelle Trindade fala sobre as propostas dos candidatos para as periferias do Rio de Janeiro – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

    Educação

    A oferta de mais cursos técnicos e profissionalizantes, além de projetos esportivos, vai definir o voto de João*, um jovem de 26 anos que vive de bicos, é pai de duas meninas e mora em uma grande favela da zona norte. “Aqui, o curso começa, a gente até inicia, mas acaba antes de a gente concluir “, criticou, ao falar sobre iniciativas encerradas antes de formarem as turmas. “Eu ainda queria estudar, mesmo sendo difícil [trabalhar e estudar]. Falar um português melhor e ter uma vida melhor”, pontuou.

    O jovem também cobra propostas para as crianças com deficiência e autismo e cita a necessidade de creches preparadas com mais mediadores nas salas. “Muitas famílias passam por dificuldade diárias, dentro da favela, onde as condições de vida já são mais precárias, mas que não encontram respostas do Poder Público.”
     


    Rio de Janeiro (RJ), 27/08/2026 – Retrato da educadora popular e estudante universitária de História Sara Sant'anna, na Uerj. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
    Rio de Janeiro (RJ), 27/08/2026 – Retrato da educadora popular e estudante universitária de História Sara Sant'anna, na Uerj. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
    Desigualdades na cidade do Rio preocupam a educadora popular e estudante de história na Uerj Sara Sant’anna – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

    Estudante de história na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Sara Sant’anna, de 24 anos, também está preocupada com as desigualdades na cidade. Cria da Favela do Rodo, na zona oeste, ela cobra a instalação de centros culturais na região, além de polos de educação superior.

    “Campo Grande é um dos maiores bairros do Brasil e a oferta de cursos superiores públicos aqui é limitada. A faculdade mais perto é longe, em Seropédica, a uma hora”, disse a educadora. Sara é também diretora da Casa Frutos, dedicada a cursinhos de pré-vestibular na Cidade de Deus, comunidade da zona oeste imortalizada no filme homônimo de Fernando Meirelles e Kátia Lund.

    Enfrentamento ao racismo e saúde

    Outra preocupação de moradores de favela é com ações que enfrentem o racismo. Na cidade do Rio, segundo o IBGE, a maior parte de moradores das favelas cariocas é formada por negros, sendo 21% pessoas pretas e 49%, pardas. Os brancos, maioria em outras áreas da cidade, são um em cada três moradores das comunidades.

    No Morro da Providência, uma das primeiras favelas do país, projetos sociais da organização Galeria Providência evidenciam como o racismo se tornou uma barreira na conquista de melhores condições de vida, a começar pela saúde, uma prioridade local.

    “Um debate que avança, em meio a uma população afetada pelo baixo nível educacional e pelas fake news [que confundem e desinformam], é o da saúde”, contou o pesquisador e fundador da organização, Hugo Oliveira. “Quando colocamos em dúvida um atendimento ruim no hospital, por exemplo, de violência obstétrica contra mulheres negras, o território consegue ter uma dimensão do problema”, avalia.
     


    Pesquisador e gestor cultural Hugo Oliveira, Dr. em Comunicação, cria do Morro da Providência. Foto: Hugo Oliveira/Arquivo Pessoal
    Pesquisador e gestor cultural Hugo Oliveira, Dr. em Comunicação, cria do Morro da Providência. Foto: Hugo Oliveira/Arquivo Pessoal
    Pesquisador e gestor cultural Hugo Oliveira defende maior articulação entre moradores da favela e Poder Público – Foto: Hugo Oliveira/Arquivo Pessoal

    O gestor cultural usa outros exemplos para puxar o diálogo sobre racismo nas favelas: as abordagens policiais, que se traduzem mais em violência contra jovens negros do que brancos, e o racismo ambiental, que se reflete no acesso a moradias mais precárias ou vulneráveis a eventos climáticos extremos que em outras áreas da cidade.

    “Esses assuntos vêm sendo colocados de forma superficial nas campanhas”, analisou o gestor. “Mas são vitais, mexem com toda a estrutura, se eu moro em um espaço saudável, isso é um fator de saúde física, emocional e até espiritual”, avaliou o doutor em comunicação pela UFRJ.

    Para Oliveira, as eleições são um momento de olhar para lideranças locais, comprometidas com os territórios. “A tua cabeça pensa onde o teu pé pisa. Ninguém sabe melhor dos nossos territórios do que nós mesmos”, afirmou.

    “Hoje a favela tem intelectuais, orgânicos ou acadêmicos, que produzem saberes, conhecimento, e é preciso promover a articulação entre eles o Poder Público, principalmente, o Executivo”, recomendou, sobre o governo do estado.

    Segurança

    Em época de eleições, as favelas são disputadas por diferentes grupos políticos, no Rio de Janeiro. Mas nem todos candidatos conseguem se apresentar aos moradores. É preciso negociar com criminosos para fazer campanhas no local, e as eleições esbarram em um problema permanente, a presença do crime organizado.

    Nascido na Cidade de Deus, Bruno Rafael Castilho Alves, de 46 anos, se mudou recentemente para o centro da capital fluminense. Além da proximidade com o emprego, ele cita a violência como um fator determinante, embora continue frequentando a comunidade, onde mantém, há cerca de 20 anos, um projeto social de aulas de muay thai. Nele, usa o hip-hop para conscientizar os alunos mais jovens.

    Na visão de Bruno, muitos candidatos não estão preocupados em atender às demandas de educação, saúde ou esporte nas áreas periféricas, que seriam “medidas eficientes” para enfrentar a criminalidade. Ao contrário, ele aponta para discursos que exaltam a morte e o confronto.

    “Vemos muito candidato falar em ‘dar tiro na cabecinha do jovem’, mas a população, principalmente periférica, não apoia”, criticou.


    Rio de Janeiro (RJ), 08/09/2026 - O produtor cultural Bruno Rafael fala sobre as propostas dos candidatos nas eleições de 2026. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
    Rio de Janeiro (RJ), 08/09/2026 - O produtor cultural Bruno Rafael fala sobre as propostas dos candidatos nas eleições de 2026. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
    O produtor cultural Bruno Rafael critica discursos de candidatos que exaltam o confronto como forma de combater a criminalidade – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

    Para o educador e os demais entrevistados, políticas públicas para a juventude aliadas ao enfrentamento da atuação financeira do crime deveriam ser prioridade.

    “A população demanda combate de forma inteligente, sem ceifar a vida de ninguém”, acrescentou Sara, da Favela do Rodo. Ela acrescentou que, nestas eleições, muitas propostas das campanhas estão centradas em aumento de policiamento, de encarceramento e redução da idade penal, o que preocupa, diante dos relatos de abuso e violência policial. “Eu, infelizmente, já tive a casa arrombada várias vezes e vi policiais apontarem uma arma para a cabeça do meu pai”, contou a estudante.

    No Rio de Janeiro, especificamente, organizações e movimentos sociais foram ao Supremo Tribunal Federal solicitar que operações em favelas tenham mais planejamento e sejam realizadas com menos impacto nas comunidades. Em geral, escolas e serviços públicos fecham por causa dos tiros disparados durante os confrontos.

    Portanto, para os jovens, a segurança passa por melhorias na qualidade de vida de quem vive nas favelas, imprensados entre a violência policial e o controle do crime organizado, que gere setores econômicos como internet, transporte, venda de água envasada e a própria segurança de moradores e comerciantes.

    “A periferia está cansada de incursão”, afirmou Bruno Rafael. “O medo de morar na comunidade é por causa das operações [policiais], da bala, que não é perdida, é achada em inocentes. Não tem como achar normal uma operação às 8h da manhã, com crianças indo para a escolas e gente indo trabalhar”, criticou. “A comunidade quer uma ocupação com responsabilidade, a bala mata pessoas como eu”, emendou.

    O morador de favela, avalia Bruno, apesar de diferente, em termos sociais e econômicos, busca propostas que vão desde urbanização a políticas de saúde, esporte, cultura e educação para seus filhos. “Isso que a gente quer”, listou.

    Levar em conta a especificidade de cada favela na cidade ou no estado do Rio deveria ser uma prioridade dos governos, avalia a professora Eblin Farage, que estuda a presença do Estado nesses espaços. “Há uma diversidade de cotidiano, de condição histórica e de sujeitos que não permite homogeneização”, explicou.

    Ela não se surpreende com a avaliação dos entrevistados, de colocar a segurança pública como uma proposta secundária para as favelas.

    “Não há, na história do Rio de Janeiro, uma política de segurança pública bem-sucedida, que seja referência para essas pessoas”, avaliou. “Para eles [moradores], a segurança são as operações, o caveirão, a violência armada e isso não interessa, não os protege.”

    Por outro lado, Eblin Farage analisa que os moradores têm referências de políticas habitacionais, de mobilidade urbana e educação recentes, das quais se lembram.

    Cada eleição, ponderou, é uma janela para pactuação de compromissos entre candidatos e comunidades. No entanto, diante das falhas dos governos em cumprir os combinados, Eblin Farage explica que os eleitores de favelas têm apostado mais na relação com o Legislativo, ou seja, em deputados estaduais, federais e senadores, com quem o diálogo e as relações tendem a ser mais próximos.

    Ela alerta, porém, para relações clientelistas, como o assédio de projetos sociais geridos e mantidos por políticos, em favelas, que ano a ano se apresentam como alternativa diante da ausência do Poder Público. Nesse tipo de atuação de organizações sociais, a pesquisadora vê fragmentação da mobilização por direitos.

    “[Durante as eleições], ONGs de políticos desempenham um papel nefasto, reeditam o clientelismo, o curral eleitoral, promovem a extrema direita, fomentam relação nebulosa com grupos armados locais, sobretudo, a milícia, e não contribuem para a formação dos sujeitos, a defesa dos direitos humanos.”

    Contribuir para organizar e mobilizar moradores na defesa de políticas públicas, inclusive em época de eleições, politizando o cotidiano da favela e o senso comum deveria ser o principal papel dessas organizações nos territórios, concluiu Eblin Farage.

    *Nome fictício a pedido do entrevistado.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Brasil reduz pobreza, mas amplia desigualdades, mostra estudo

    Brasil reduz pobreza, mas amplia desigualdades, mostra estudo

    O Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026 aponta que o Brasil avançou, no último ano, em 34 (71%) dos 48 indicadores estudados para análise do processo de enfrentamento das desigualdades.

    Os avanços apontados pelo estudo são relativos, principalmente, à melhoria de renda média, ao aumento do mercado de trabalho, à redução da pobreza, além de maior segurança alimentar e acesso aos serviços básicos.

    Índices de saúde – como redução da desnutrição infantil e de idosos; educação – como queda do analfabetismo; e segurança, – como redução da taxa de homicídios registrados de jovens de 15 a 29 anos, também melhoraram.

    Do total de indicadores analisados, oito pioraram e seis se mantiveram estáveis. Entre as pioras estão:

    • ampliação do número de mulheres que recebem remuneração inferior à dos homens;
    • agravamento da concentração da renda;
    • tributação menor conforme a renda é maior; 
    • condições mais desfavoráveis à população negra;
    • aumento da concentração dos piores indicadores sociais no Norte e Nordeste.

    Para os responsáveis pelo relatório, os indicadores que apresentaram piora revelam que os principais mecanismos de reprodução das desigualdades permanecem ativos.

    “O crescimento econômico beneficiou diferentes grupos sociais, mas não foi suficiente para reduzir as disparidades históricas de renda, gênero, raça e território”, destaca o relatório.

    O relatório publicado neste ano é a quarta edição. O primeiro foi publicado em 2023. A última publicação traz análises atuais sobre indicadores de 2025, com exceção de algumas bases de dados não atualizadas anualmente.

    Um exemplo são os indicadores derivados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), que analisam gastos com transporte e carga tributária a cada dois anos. Outro caso é o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), divulgado em 2024, após seis anos da pesquisa anterior.

    Na avaliação da diretora técnica do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, Adriana Marcolino, a indisponibilidade desses indicadores atualizados em 2025 não interfere no comparativo com as edições anteriores do relatório.

    “Nesses casos, a gente olha o dado em comparação com o mesmo dado do ano anterior, então isso não cria um viés de tempo.  Os indicadores que a gente acompanha já indicam tendências pelo fato de já termos quatro anos de relatórios”.

    No prefácio da publicação, Betina Ferraz Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) Brasil e economista-chefe do Pnud Brasil avalia que a análise dos indicadores contribui para um aprofundamento de índices divulgados por diversas organizações e vão além do conceito de desenvolvimento humano com base exclusivamente em indicadores econômicos de saúde e educação.

    “Os números médios escondem uma realidade mais complexa: os avanços foram reais e, ao mesmo tempo, profundamente desiguais”, destaca.

     

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Dia dos pais: combate à misoginia começa pelo exemplo em casa

    Dia dos pais: combate à misoginia começa pelo exemplo em casa

    Do gol a gol para o pique-pega. Do esconde-esconde ao skate, depois para o balanço e, em seguida, para a queimada. “Samuca, vem almoçar!”, alguém grita. “Só mais um pouco”, responde o menino, de 8 anos. Mais corrida, pique-bandeirinha e começa tudo de novo. O menino não se cansa, enquanto vive a pureza e a velocidade da infância. Só parou um dia das férias para levar um papo mais sério com o pai.

    Era para falar de uma conversa que teve com um amigo, em que os dois riram porque viram um pouco demais do corpo de uma amiguinha. O pai, o goianiense Cleomar Barros, de 43 anos, morador de Brasília, recorda que precisou falar sério. Disse que era preciso respeitar as meninas, como sempre tratou a irmã, de 11 anos. E que não se deve dar risada. O menino concordou e o abraçou.


    Brasília - 07/08/2026 - Cleomar Barros ensina o filho desde criança a respeitar as meninas. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
    Brasília - 07/08/2026 - Cleomar Barros ensina o filho desde criança a respeitar as meninas. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
     Cleomar Barros ensina o filho desde criança a respeitar as meninas – Foto Valter Campanato/Agência Brasil

    “Faço questão sempre de mostrar que devemos ser parceiros e amigos”, diz Cleomar, que é analista de sistemas. Ele destaca que tenta mostrar ao filho gestos de cuidado e respeito que tem com a esposa e com a filha.

    Aliás, a “educação pelo exemplo” é, segundo profissionais que estudam e trabalham com temas ligados à “masculinidade saudável”, uma chave para que os pais atuem contra a misoginia dentro de casa, segundo afirmaram em entrevistas à Agência Brasil. Cada passo contra o machismo em casa (ou em qualquer outro espaço) pode representar bem mais do que um presente de Dia dos Pais (que é só uma vez ao ano).

    Ação afetiva

    Em um cenário de tantas violências, de estupros coletivos a demonstrações de grupos masculinistas que demonstram ódio às mulheres, a ação afetiva dos pais no tempo presente pode ser preventiva. Mais conscientes, pais podem agir pela consciência dos meninos, ser mais parceiro das escolas e cobrar políticas públicas que tragam condições civilizatórias. 

    “As maiores e mais eficazes formas de aprendizado de uma criança se dão por meio do modelo que o pai apresenta”, afirma o psicanalista Thiago Queiroz, que tem uma página intitulada “Paizinho, vírgula!”, com mais de 324 mil seguidores, e é autor do livro Amor de pai. No instagram, a página pode ser vista neste link.


    Brasília - 07/08/2026 - Pais contra a misogenia - Thiago Queiros. Foto: Arquivo pessoal
    Brasília - 07/08/2026 - Pais contra a misogenia - Thiago Queiros. Foto: Arquivo pessoal
    O psicanalista Thiago Queiros diz que respeito às mulheres precisa ser naturalizado – Foto Thiago Queiroz/Arquivo pessoal 

    Ele, que atua no Rio de Janeiro, diz que o respeito às mulheres precisa ser naturalizado em todos os espaços que frequenta com as crianças. “Esse processo é interpretado pela criança, pelo filho, à medida que vai crescendo”, acrescentou. 

    Para Cleomar, a qualquer momento, é necessário observar se os meninos fazem comentários inadequados sobre as meninas. “Existem muitos livros infantis que trazem esse assunto de forma lúdica para naturalizar a força das mulheres e que não precisam de um príncipe encantado para salvá-las sempre”. Na pré-adolescência, já é possível, segundo ele, tratar do tema violência contra as mulheres.

    Mais atenção

    A psicóloga Bárbara Lobato, que atua em Brasília com famílias, concorda com a intervenção positiva. Ela tem observado que aumentou o número de pais atentos ao combate à misoginia. “É uma construção que tem de ser feita  de forma cotidiana”. 

    Para Bárbara, é muito importante que os homens saibam, na vida adulta, identificar e falar sobre as suas dores para que possam transmitir as melhores mensagens aos filhos, de forma que estejam abertos ao diálogo, à transparência e à conexão. 

    “É importante observar que garotos em idade de adolescência têm as próprias dores e, eventualmente, relatam algum tipo de negligência afetiva ou social por não se sentirem compreendidos”. 

    Por isso, ela indica ser necessário, com o apoio dos responsáveis, acolher esse sentimento e compreender a angústia daquele rapaz. Esse caminho deve ser compartilhado também no ambiente escolar, espaço em que crianças e adolescentes podem ter contatos também com representações de machismo.

    Mundo da escola

    A professora e orientadora educacional Ana Paula Lilly, de 56 anos, de uma escola da cidade de Bauru (SP), observa que os discursos de misoginia chegam aos adolescentes também por grupos de mensagens no celular.

    “É preciso trabalhar com prevenção, com educação digital e midiática. É preciso ensinar nossos jovens a analisar criticamente o que eles estão consumindo”, afirma. 

    Ana Paula explica que a escola deve auxiliar os pais sobre o que crianças e adolescentes vivenciam quando não estão em casa. “Família e escola devem agir em parceria com mensagens coerentes sobre respeito, igualdade e responsabilidade”. Por isso, é dever da unidade de ensino também chamar os pais ou responsáveis quando houver incidência de demonstrações de violências.

    Rede paterna

    Para ampliar as discussões sobre a paternidade, um grupo de pais em São Paulo criou, na última semana, o canal de vídeos Papicast. para ser um espaço de discussão e uma rede de apoio paterna. Tiago Koch, de 43 anos, defende que os pais apresentem aos filhos  limites nas questões relacionadas ao corpo. 

    Ele, que é cofundador também de um projeto chamado “De Mano pra Mano” de atuação nas escolas diretamente com meninos, avalia que os garotos estão “pedindo ajuda em silêncio” sobre como se relacionar com as meninas. Para ele, o machismo estrutural faz parte do contexto de vida dos garotos, e eles precisam contar com o apoio dos pais para entender mais sobre o mundo.

    “Há um ensinamento (perigoso) cada vez mais reforçado por esses grupos masculinistas e pelas próprias redes sociais”, afirma. 

    O educador aponta que os meninos carecem de espaços de escuta, e de construção de caminhos propositivos que fujam de estereótipos de homens atravessados pela violência, força, performance da masculinidade, da provisão financeira e da hipersexualização. 

    Tiago Koch considera que os pais estão com dúvidas sobre como lidar com as características de um mundo diferente porque não contam com referências dos antepassados. “Eles estão sendo atropelados principalmente pelo avanço da tecnologia que, a cada dia, traz novos desafios”.

    Também no Papicast,, o ator e conferencista Tadeu França – pai de dois meninos -, que trata de temas como antirracismo e antibullying na infância, exemplifica que os filhos reconhecem quando o homem e a mulher atuam pelo cuidado da casa. “Em algum momento da criação, ele entendeu e associou que as coisas da casa são da mãe”.

    O terceiro participante do projeto, Dennis Takada, relata que os pais queriam ter mais tempo para ficar com os filhos. “As políticas públicas devem levar em conta as necessidades da paternidade e são fundamentais para melhorar a relação da família”.

    Meninas

    Os integrantes do Papicast defendem mais ações no campo de direitos dos pais, como a licença paternidade, e materiais educativos e de orientação às famílias. Tiago Koch considera que as meninas têm reconhecido mais imediatamente demonstrações de machismo e cobrado dos rapazes uma postura diferente. 

    “Elas continuam precisando de políticas públicas de proteção e de escuta. Quando elas falam que os homens estão sendo machistas, pode virar ressentimento, ódio e violência. E eles não entendem”, afirmou. 

    “Não engolir o choro”

    Foi a partir das dores, que aprendeu em casa, que o terapeuta Fábio Manzoli, de Jundiaí (SP), pai de gêmeos e criador do canal “Masculinidade saudável”, resolveu tratar dos traumas de outros homens. Tinha na memória a ordem que ouviu em casa: “homem deve engolir o choro”. 


    Brasília - 07/08/2026 -Pais contra a misogenia. -  Fábio Manzoni - Foto: Arquivo pessoal
    Brasília - 07/08/2026 -Pais contra a misogenia. -  Fábio Manzoni - Foto: Arquivo pessoal
    O terapeuta Fábio Manzoli, de Jundiaí (SP), criou o canal “Masculinidade saudável – Foto Fábio Manzoli/Arquivo pessoal

    Em contrapartida, ouviu palavras pejorativas para se referir a mulheres. “Comecei a perceber também padrões machistas em mim”. Mudou a própria história, depois de entender que o caminho de sua vida poderia ser diferente. “Comecei a perceber que esse ‘engole o choro’ era a raiz da maioria dos meus problemas”. 

    O nascimento dos filhos abriu ainda mais seus olhos. Não somente abriu, como também deixou molhar. “Nós pais podemos chorar para eles também. Mostrar que a gente é ser humano. E que eles também estão autorizados a chorar”, disse.

    Romper o silêncio permanente dos homens pode ser mais um dos passos no combate à misoginia de todos os dias. “Romper também com a história das mensagens machistas que eram tidas como naturais. Eu cresci, meus amigos cresceram, com ideias muito erradas. Chegou a hora de a gente mudar isso”, diz Cleomar, pai do Samuca. O menino corre, brinca e é fã da irmã mais velha.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original