Tag: COP17 da Desertificação

  • COP17 caminha para novo adiamento de acordo de combate às secas

    COP17 caminha para novo adiamento de acordo de combate às secas

    A criação de um regime global para enfrentar as secas será adiada mais uma vez. Enquanto declarações oficiais sinalizam alguma esperança, negociadores envolvidos diretamente no processo indicam que não há dúvidas sobre o desfecho da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que está sendo realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia.

    O evento termina oficialmente nesta sexta-feira (28), mas um grupo de países já deixou claro que não haverá acordo sobre o tema. A oposição é liderada principalmente pelos Estados Unidos (EUA) e pela União Europeia (UE), mas é compartilhada por outros países sul-americanos como Argentina, Chile e Paraguai.

    O que está acordado até o momento é a apresentação de uma decisão procedimental ao fim da conferência, deixando novas discussões sobre o tema para a COP18, em 2028, que provavelmente será realizada no Egito. Algo igual ocorreu na COP16, em Riad, na Arábia Saudita.

    O Brasil se coloca a favor da criação do regime das secas, mas entende que, como não será possível chegar a um consenso mais uma vez, o melhor é manter o tema na agenda para futuras discussões.

    Até mesmo esse encaminhamento precisou ser mediado durante a semana, principalmente pelo Brasil e a Arábia Saudita. Enquanto representantes dos Estados Unidos queriam a exclusão total do tema dos documentos finais, países da África insistiam na criação efetiva do mecanismo.

    A proposta é defendida por africanos há, pelo menos, três conferências. Historicamente afetados pela escassez hídrica e expansão de desertos, eles exigem um mecanismo multilateral para enfrentar de forma coordenada esses problemas.

    Isso demandaria ajuda financeira para os países mais vulneráveis serem capazes de se antecipar e se recuperar dos eventos extremos. Eles entendem que mecanismos internacionais, como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), são estruturados sob o tema de degradação das terras, algo mais amplo do que a seca.

    Os países mais ricos, porém, não querem se comprometer com um acordo obrigatório e defendem adesão voluntária. A União Europeia não quer se comprometer com gastos externos, principalmente quando precisa enfrentar crises recentes de seca no próprio território.

    Os impasses são financeiros, mas também geopolíticos. Alguns países, liderados principalmente pelos Estados Unidos, tentam enfraquecer e travar agendas multilaterais como um todo desde o primeiro dia da COP17.

    Contexto geopolítico desfavorável

    Uma vez que o documento final da COP17 deverá ser apresentado somente ao fim do evento, autoridades envolvidas nas negociações tentam ser otimistas. É o caso de Andrea Meza Murillo, secretária executiva adjunta da UNCCD, órgão das Nações Unidas responsável pela conferência.


    Brasília (DF), 27/08/2026 - Andrea Meza, secretária-executiva adjunta da UNCCD, em reunião na COP17.
Foto: Kiara Worth/UNCCD
    Brasília (DF), 27/08/2026 - Andrea Meza, secretária-executiva adjunta da UNCCD, em reunião na COP17.
Foto: Kiara Worth/UNCCD
    Andrea Meza, secretária executiva adjunta da UNCCD, diz, na COP17, na Mongólia, que espera acordo para combate às secas – Foto Kiara Worth/UNCCD

    Meza disse esperar por um acordo sobre as secas, porém, não escondeu que há dificuldades.

    “Estamos em um momento em que o túnel está escuro, mas acho que sempre haverá uma luz no fim dele. Temos esperança e estamos trabalhando muito para isso”, disse Meza em entrevista à Agência Brasil e a cinco veículos internacionais.

    “Acho que a maioria dos países não pode simplesmente voltar para suas bases eleitorais e dizer que este não é um desafio comum global e que eles não vão colaborar com a comunidade internacional para enfrentá-lo”, complementa. 

    Andrea Meza, que também foi ministra do Meio Ambiente e Energia da Costa Rica, disse confiar na pressão social para que os governos assumam a urgência do tema.

    “Quando governos esquecem de suas responsabilidades, uma sociedade civil forte, ONGs e o setor privado podem dar continuidade a isso. Engajamento e uma agenda de ação robusta, com muitas iniciativas, projetos e programas, são o caminho para que isso ocorra”, reflete Meza.

    “Porém, neste novo contexto geopolítico, teremos cada vez mais dificuldades para alcançar resultados negociados ambiciosos”, complementa.

    Urgência do problema

    Relatórios da UNCCD indicam que a frequência, intensidade e alcance espacial das secas aumentaram quase 30% desde 2000. A extensão do problema é reforçada por eventos recentes na Europa, África, Ásia e América Latina. 

    Segundo o coordenador do grupo de trabalho sobre seca da UNCCD, Daniel Tsegai, tratar o fenômeno como desastre imprevisível é abordagem ultrapassada. Ele defende que os países precisam instituir políticas permanentes para atuar antes, durante e após os períodos de eventos extremos.

    “Para uma crise pontual, você não se prepara: apenas espera que ela chegue com força e depois tenta reagir. Mas a seca agora é uma crise constante. Precisamos mudar esse paradigma da gestão de crises para a gestão preventiva de riscos”, ponderou o especialista.

    Tsegai alertou que a seca deixou de ser um problema exclusivo do setor agrícola ou de falta de chuva temporária, tornando-se um risco sistêmico que afeta hidrovias, transporte, saúde e o comércio global.

    Mesmo países não atingidos diretamente pela falta de chuva sofrem as consequências econômicas e de deslocamento populacional. Eventos climáticos em um local geram impactos logísticos e econômicos em outros continentes. Tsagai cita o exemplo de como uma redução do nível da água no Canal do Panamá ou no Rio Reno podem afetar o comércio internacional e o suprimento de grãos.

    O especialista enfatizou que os impactos transfronteiriços da seca exigem resposta unificada e que a preparação deve ocorrer antes que o evento extremo se materialize.

    “Não devemos esperar até que a seca nos atinja para dizer se éramos resilientes ou não. Isso é tarde demais. Alcançamos um momento em que esta é a prioridade máxima. Vamos olhar para isso juntos e encontrar uma solução”, pede Tsagai.

    Iniciativas paralelas de financiamento

    Enquanto o regime global de secas continua sob incertezas, iniciativas paralelas sobre o tema avançam durante a COP17. Duas delas envolvem mecanismos de financiamento.

    A Aliança de Riad para Resiliência Global à Seca (RGDRP, na sigla em inglês) está desenvolvendo um fundo comum para ajudar 70 países em desenvolvimento a resistir e se adaptar ao fenômeno. A primeira assembleia do grupo ocorreu na Mongólia. 

    A Arábia Saudita, fundadora da aliança, se comprometeu a investir US$ 150 milhões. O Banco Islâmico de Desenvolvimento e o Fundo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opeo) prometeram aporte de US$ 2 bilhões.

    Outro anúncio feito em Ulaanbaatar foi a criação do Fundo de Investimento para Resiliência à Seca (Drif, na sigla em inglês), considerada a primeira plataforma global de financiamento catalítico.

    Investimentos nessa modalidade aplicam recursos públicos, filantrópicos ou subsidiados para assumir maiores riscos ou aceitar retornos financeiros menores, com o objetivo principal de atrair e destravar capital privado em larga escala.

    O fundo foi criado pela UNCCD e o governo de Luxemburgo, com apoio da Aliança Internacional para Resiliência à Seca (Idra). O país europeu fez aporte inicial de US$ 2 milhões. O objetivo do fundo é mobilizar até US$ 400 milhões em capital público e privado.


    Brasília (DF), 27/08/2026 - Vista das estruturas da  COP17.
Foto: Kiara Worth/UNCCD
    Brasília (DF), 27/08/2026 - Vista das estruturas da  COP17.
Foto: Kiara Worth/UNCCD
    Conferência apresenta Fase 2 do Observatório Internacional de Resiliência à Seca – Foto Kiara Worth/UNCCD

    Plataforma contra seca

    Foi apresentada na Mongólia a Fase 2 do Observatório Internacional de Resiliência à Seca (Idro, na sigla em inglês), uma plataforma desenvolvida pela UNCCD, o Centro de Ecossistemas e Arquitetura de Yale e a Aliança Internacional de Resiliência à Seca (Idra).

    A nova etapa marca uma transição entre a versão piloto apresentada na COP16 e a plataforma online que promete ajudar os países a irem além do simples monitoramento dos riscos de seca.

    Ela se baseia no Índice de Resiliência à Seca (DRI), que define a capacidade dos países de antecipação, preparação e adaptação ao fenômeno. O objetivo é identificar vulnerabilidades e fundamentar políticas e investimentos mais eficazes.

    Há recursos com inteligência artificial para ajudar formuladores de políticas, especialistas técnicos e o público em geral a interpretar dados complexos. A plataforma inclui oito estudos de caso detalhados de países em cinco continentes. Ela está aberta para revisão por usuários do mundo todo, que podem ajudar a aprimorar a ferramenta.

    * O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Degelo e seca avançam sobre Ásia Central e pequenos países insulares

    Degelo e seca avançam sobre Ásia Central e pequenos países insulares

    Dois relatórios lançados nesta quarta-feira (26) alertam que os pequenos países insulares em desenvolvimento (SIDS, na sigla em inglês) e a Ásia Central estão sofrendo pressões sem precedentes sobre recursos hídricos, saúde do solo e clima.

    No total, são mais de 50 países e territórios afetados. As duas publicações foram apresentadas oficialmente na 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que está sendo realizada em Ulaanbaatar, capital da Mongólia.

    Os textos fazem parte do Global Land Outlook (GLO), principal publicação da convenção das Nações Unidas sobre a terra (UNCCD). O documento geral teve duas versões até agora, o GLO1 de 2017 e GLO2 de 2022, e seis relatórios regionais. Entre elas, o da América Latina. 

    Ásia Central

    A Ásia Central é formada por Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão. A imagem de outros tempos, de estepes vastas e oásis férteis, está deixando de existir.

    A região é considerada um dos epicentros mundiais da degradação do solo. Mais de 80 milhões de hectares, ou mais de um quarto, já estão degradados. O problema atinge 30% da população ou 24 milhões de pessoas. O cálculo da UNCCD é de que, a cada ano, essa degradação provoque perdas entre dois e seis bilhões de dólares. 

    A Ásia Central também está aquecendo duas vezes mais do que a média global. As geleiras,  que antes eram as “torres de água” da região, encolheram 30% em apenas cinquenta anos.

    Países insulares

    Os SIDS incluem 39 países e 18 territórios no Caribe, oceanos Pacífico, Atlântico e Índico, além do Mar do Sul da China. Cerca de 18,8 milhões de hectares de terra, ou 16,5% de sua área total combinada, estão degradados em diferentes graus, ligeiramente acima da média global.

    Mais de 70%  deles enfrentam problemas de escassez de água e 43% da área total estão sendo afetados pela seca. Desses, 3% sofreram seca severa e 6% seca extrema. A área total afetada pela seca extrema aumentou 30% entre os períodos de 1961/1970 e 2014/2023.

    Estima-se que 16,3 milhões de pessoas enfrentem insegurança alimentar grave, com 11,5 milhões de pessoas subnutridas.

    Estes países recebem cerca de US$ 2 bilhões em financiamento público para adaptação por ano, o que equivale a aproximadamente 0,2% do financiamento climático global total. Os pesquisadores estimam que os países precisarão de pelo menos US$ 11,7 bilhões anualmente para fins de adaptação, quase seis vezes o nível atual de financiamento.

    A secretária executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, disse que apesar das diferenças, tanto Ásia Central como os SIDS mostram vulnerabilidades, mas ainda estão em situação possível de melhora.

    “ A prioridade agora é acelerar esse progresso, ao investir na gestão responsável da terra, fortalecendo a cooperação regional e internacional e garantindo que as pessoas e os ecossistemas permaneçam no centro das decisões de desenvolvimento”, afirma Yasmine.

    *O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Brasil promete restaurar 163 mil km² de terras degradadas até 2030 

    Brasil promete restaurar 163 mil km² de terras degradadas até 2030 

    O Brasil apresentou nesta terça-feira (25) as primeiras metas de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN, na sigla em inglês). A promessa é restaurar mais de 163 mil quilômetros quadrados (km²) até 2030. O anúncio foi feito durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), em Ulaanbaatar, na Mongólia.

    Para chegar a esse número, estão previstas iniciativas para recuperar a vegetação nativa, investimento em sistemas agroflorestais, além de ações em unidades de conservação, territórios indígenas, áreas de preservação permanente e bacias hidrográficas.

    As metas LDN são compromissos voluntários que os países assumem para garantir aumento ou manutenção da quantidade de terras saudáveis e produtivas em seu território.

    O Brasil usa como referência o ano de 2020, quando detinha 55,7 milhões de hectares com tendência à degradação. Ou seja, para cumprir o compromisso de neutralidade, precisa chegar em 2030 com, pelo menos, o mesmo número.

    Também estão previstas ações de prevenção, conservação e manejo sustentável em outros 3,51 milhões de km². Assim, o número oficial das metas LDN é de 3,67 milhões de km², por incluir tanto a área de restauração quanto à de conservação.

    O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, disse que o Brasil tem sido proativo em favor da convenção, para que o grupo obtenha ainda mais capacidade de mobilizar os países.

    “A cada dia que passa, crescem as áreas sujeitas à seca e à degradação da terra em vários países. Portanto, é uma ação decisiva de cooperação internacional contra a desertificação.”

    A representante regional da UNCCD na América Latina e Caribe, Laura Meza, disse que a meta voluntária brasileira posiciona a América Latina como uma das regiões com o maior volume territorial de compromisso de sustentabilidade do solo do planeta. Os benefícios, segundo ela, alcançam diferentes dimensões. 

    “Restaurar não tem apenas um impacto ambiental, tem impacto na agricultura e na restauração socioprodutiva. Não se pode separar esse impacto ambiental da vida das pessoas”, disse Meza.

    A diretora adjunta da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Nora Barahona, disse que o país tem a responsabilidade de cumprir as metas e ser uma referência global.

    “Precisamos do apoio do Brasil para apoiar outros países-membros, para construir uma solidariedade dentro da região e internacionalmente. Para que outros sigam o exemplo maravilhoso que vocês estão dando”, disse Nora.

    Atraso

    Dos 196 países membros da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), 131 comprometeram-se a estabelecer metas de LDN, entre eles, o Brasil. Mas a apresentação oficial do país veio com quase 10 anos de atraso.

    O conceito de LDN foi oficialmente formalizado pela ONU em 2015, e o processo de recebimento das metas dos governos nacionais começou em 2017.

    O Brasil instituiu em 2015 a Política Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca por meio da Lei nº 13.153. Nesse contexto, foi criada a Comissão Nacional de Combate à Desertificação (CNCD)

    No ano seguinte, ela ficou inativa e foi extinta em 2019. A comissão foi retomada e reorganizada em 2024, por meio do Decreto nº 11.932.

    *O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • EUA são criticados por bloquear gênero e participação social na COP17

    EUA são criticados por bloquear gênero e participação social na COP17

    Representantes da sociedade civil e de povos tradicionais criticaram nesta terça-feira (25) o posicionamento dos Estados Unidos durante a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17). Desde o início do evento, o país tem bloqueado a inclusão de pautas sociais na agenda de negociações.

    Um dos tópicos rejeitados é o de gênero, que trata da igualdade de direitos e de maior representatividade para as mulheres. A articuladora de gênero da sociedade civil na conferência, Beth Roberts, disse que os Estados Unidos exigiram a remoção da palavra em qualquer debate e a definiram como inegociável.

    Beth afirmou que a postura adotada por Donald Trump desde o início de seu governo é abertamente ideológica e reflete estruturas mais amplas de poder.

    “O nacionalismo e o autoritarismo demonstrados pelo governo dos Estados Unidos não estão desconectados do patriarcado. Não estão desconectados da conversa sobre poder que estamos tendo ao longo de toda esta conferência”, disse Beth.

    As principais decisões da COP17 precisam ser tomadas por consenso. A objeção de um país a qualquer elemento dos textos oficiais impede a aprovação deles. Isso inclui agenda, mecanismos, relatórios, instrumentos políticos, protocolos globais, entre outros.

    Beth argumentou que quando as negociações são rompidas com a intenção de travar avanços, os outros países precisam se unir e utilizar ferramentas próprias do protocolo da conferência para proteger o espaço.

    “Os países participam como membros iguais desta convenção. Uma única parte não deveria ter permissão para ditar a conversa neste espaço”, argumentou.

    Já a representante do grupo indígena, Jennifer Tauli Corpuz, do povo Kankana-ey Igorot das Filipinas, apontou o desvio do conceito:

    “Nas comunidades de povos indígenas, tomamos decisões por consenso, mas isso não significa unanimidade. Consenso não é bloqueio. A objeção de uma pessoa não deve sacrificar o bem de todos.”

    A líder indígena reforçou a urgência dos impactos reais no terreno em oposição aos bloqueios diplomáticos.

    “Os países têm que ser corajosos. Têm que lembrar de sua responsabilidade. Estão aqui para responder à seca, às pessoas que estão morrendo de fome ou por causa das perturbações do clima. Não estão aqui apenas para conversar entre si e ir embora”, disse Jennifer.

    A ativista Hindou Oumarou Ibrahim (imagem em destaque), líder do povo pastoral Mbororo, do Chade, afirmou que ciência e conhecimentos tradicionais devem ser colocados juntos, porque a sociedade civil e as comunidades representam as soluções reais.

    Hindou Oumarou Ibrahim reforçou que o grupo não está na conferência como observador passivo, mas para participar plenamente de todas as etapas do processo.

    “O próprio programa oficial da COP17 reconhece a importância de nossos grupos de interesse. A ressalva é muito simples: se essas vozes são reconhecidas fora das salas de negociação, por que deveriam ser excluídas das decisões que moldam o futuro?”, questionou.

    Brasil e União Europeia têm se destacado na oposição aos Estados Unidos e na defesa de inclusão da sociedade civil na agenda.

    Durante evento paralelo na conferência, o ministro do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, reforçou o posicionamento do país: de que negociações precisam incluir os que mais são impactados por elas.

    “Vemos aqui manifestações de países contrários à participação da sociedade civil, que não permitem a formalização dos grupos de debate permanentes junto à convenção. Temos que enfrentar isso, temos que aproveitar os últimos dias agora para reverter essa tendência”, disse o ministro.

    *O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Estados do Nordeste tentam atrair investimentos para Caatinga na COP17

    Estados do Nordeste tentam atrair investimentos para Caatinga na COP17

    Representantes do Consórcio Nordeste, que envolve os nove estados da região, estão em Ulaanbaatar, na Mongólia, em busca de recursos para projetos de segurança hídrica, transição energética e restauração do bioma Caatinga.

    A delegação nordestina participará de eventos e reuniões com organismos financeiros e bancos multilaterais ao longo da última semana da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17).

    Nesta segunda-feira (24),  o Consórcio participou de um painel no Pavilhão Brasil, no espaço oficial da conferência, com o Banco Mundial, o Mecanismo Global das Nações Unidas. Também se juntaram ao evento o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Banco do Brasil e o Banco do Nordeste.

    Para terça-feira (25), está prevista a apresentação do recaatingamento como estratégia integrada de restauração ecológica, adaptação climática e desenvolvimento territorial sustentável. O recaantigamento é um método de convivência com o semiárido, baseado nos conhecimentos e participação das populações locais para recuperar áreas degradadas e conservar a biodiversidade do bioma.

    Plano Nordeste e Fundo Caatinga

    Outra estratégia de integração regional em destaque é o Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica (PTE-NE), que articula proteção ambiental, competitividade econômica, inclusão social, inovação tecnológica e fortalecimento institucional.

    Os projetos do plano que serão apresentados para a captação de financiamentos envolvem a adaptação diante da seca, como cisternas, barragens subterrâneas, reuso e dessalinização descentralizada.

    O Consórcio também espera atrair investimentos para o Fundo Caatinga, tido pelos governantes como um meio de centralização dos recursos regionais e redução do custo de transação que recai sobre cada projeto individualmente.  

    Nas agendas bilaterais com o Banco Mundial, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA-ONU), o Novo Banco de Desenvolvimento (Brics), serão destacadas três linhas que orientam os projetos.

    A primeira é a segurança hídrica como infraestrutura de adaptação, que reúne dessalinização, poços solares, reuso e conservação de mananciais, com engenharia conhecida, custo por beneficiário mensurável e forte aderência às metas de neutralidade da degradação da terra.

    A segunda envolve transição energética e industrialização de baixo carbono, com exemplo de centros de hidrogênio verde e combustíveis renováveis já estruturados em Pecém (CE), em Suape (PE) e em Santo Amaro das Brotas (SE).

    Além deles, a restauração da terra e a bioeconomia da Caatinga, a partir do recaatingamento, viveiros de grande porte e cadeias produtivas da agricultura familiar.

     

    *O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • COP17 entra em semana decisiva com missão de destravar financiamento

    COP17 entra em semana decisiva com missão de destravar financiamento

    A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) entrou na última e decisiva semana de negociações em Ulaanbaatar, capital da Mongólia. Os próximos quatro dias do encontro serão divididos em eixos temáticos específicos para tentar acelerar acordos.

    Nesta segunda-feira (24), o foco principal são as finanças. Delegações estão mobilizadas para tentar captar mais recursos destinados à restauração dos solos e combate à seca. Os investimentos anunciados durante o dia, no entanto, mostram que os objetivos ainda estão muito longe de ser alcançados.

    Os novos recursos somam US$ 1,3 bilhão, mas o déficit anual estimado pelos especialistas das Nações Unidas é de US$ 278 bilhões por ano. 

    A secretária executiva da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD, na sigla em inglês), Yasmine Fouad, fez um apelo para que setores público e privado se engajem no processo.

    “Falamos de financiamento não para doar, mas para investir. Para mobilizar recursos que invistam nas pessoas, nas economias e na prevenção. Prevenção dos conflitos que vemos em muitas das nossas áreas de pastagem. Queremos levar a resolução para além das palavras no papel e implementá-la na vida das pessoas.”

    Pastagens são prioridade

    O maior anúncio econômico da COP17 envolve as pastagens, que ocupam mais da metade da superfície terrestre e são fundamentais para a subsistência de centenas de milhões de pessoas.

    A Rangelands Flagship Initiative, lançada em parceria pelo governo da Mongólia e a UNCCD, reúne carteira de 45 projetos e está avaliada em US$ 1,2 bilhão. Segundo os organizadores, trata-se da maior mobilização financeira da história da Convenção voltada especificamente para esses ecossistemas.

    A iniciativa pretende conservar, gerir de forma sustentável e restaurar pastagens e ecossistemas de terras secas em todo o mundo. O tema é central para a Mongólia, onde a conservação das estepes está diretamente ligada à sobrevivência de comunidades que dependem da criação de animais.

    O especialista em economia ambiental do Mecanismo Global da UNCCD Pablo Munõz disse que o déficit financeiro exige novas formas de atuação. Entre as alternativas discutidas estão o uso de recursos públicos que reduzam riscos para investidores privados, garantias, capital de primeira perda, seguros e novos modelos de negócios.

    “Reconhecemos a importância das doações e do financiamento concessional [em condições mais favoráveis que as de mercado], mas a escala necessária exige pensar de forma diferente.”

    Atualmente, o setor privado responde por apenas cerca de 6% do financiamento global destinado à restauração de terras. Para tentar ampliar essa participação, a UNCCD anunciou uma rede de centros nacionais chamada Business4Land, voltada à aproximação entre empresas, governos e investidores.

    A especialista em sustentabilidade no Mecanismo Global da UNCCD Sarah Toumi afirmou que empresas começam a enxergar que também sentirão os impactos ambientais.

    “Eles precisam mudar suas práticas para sobreviver do ponto de vista econômico, porque a seca e a degradação do solo representam um risco econômico, não apenas ambiental. Então, precisam pensar em como investir para o bem próprio.”

    Segundo ela, setores como agricultura, moda e alimentos dependem diretamente da saúde do solo e da disponibilidade de água. A ideia é que empresas passem a medir seus impactos sobre a terra e incluam a recuperação ambiental em suas estratégias de negócio.

    Nova agenda para as secas

    Outra aposta da COP17 é ampliar os recursos destinados à preparação para os períodos de seca. O Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês) anunciou a criação de um programa integrado para gestão de terras, com previsão inicial de US$ 140 milhões.
     


    Da Amazônia à Europa, seca avança e movimenta debates na COP17. Rio seco no Semiárido Nordestino. Crédito: ASA / Divulgação
    Da Amazônia à Europa, seca avança e movimenta debates na COP17. Rio seco no Semiárido Nordestino. Crédito: ASA / Divulgação
    Seca avança e movimenta debates na COP17. Foto: ASA / Divulgação

    A iniciativa pretende auxiliar países a abandonar uma lógica baseada na resposta a emergências e investir mais em prevenção, monitoramento e planejamento, explica Ulrich Appel, representante do GEF.

    “Isso ajudará os países a ter um planejamento rodoviário nacional mais robusto, soluções baseadas na natureza e investimentos que fortaleçam a resiliência antes que a seca se torne um desastre”, disse Ulrich.

    *O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Degradação da terra e clima extremo ameaçam nômades na Mongólia

    Degradação da terra e clima extremo ameaçam nômades na Mongólia

    O nômade Batchuluun Maamun, de 57 anos, cresceu nas estepes da Mongólia sempre atento aos sinais da natureza e do céu. Quando o vento chega com intensidade do sul, é questão de tempo para a chuva chegar. Se o sol nasce com um anel de arco-íris ao redor, a previsão é de frio e neve intensos.

    Nas últimas décadas, esses sinais têm trazido cada vez mais preocupação e ansiedade. Episódios recentes de seca prejudicaram a vegetação e fizeram ovelhas, cabras, cavalos e bois sofrerem com o calor. Em 2010, um inverno extremo, conhecido como dzud, provocou a morte de 700 dos 1,3 mil animais que eles tinham. No dzud de 2020, a perda foi de 20% desse rebanho.


    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas. Nômade Batchuluun Maamun, de 57 anos
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil
    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas. Nômade Batchuluun Maamun, de 57 anos
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil
    Nômade Batchuluun Maamun, de 57 anos, vê sinais mais fortes da crise climática Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil

    Batchuluun Maamun vive com a família em uma comunidade de pastores na zona de amortecimento do Parque Nacional de Hustai, que fica a cerca de 100 km a sudoeste da capital. A área permite moradia e uso do solo, mas possui um conjunto de regulamentações para não prejudicar o meio ambiente.

    Há 27 anos eles migraram para a região em busca de condições melhores, percorrendo mil quilômetros de distância desde o ponto anterior. Movimentos são parte essencial da vida nômade e são ditados pelas estações. Durante o verão, eles ficam no acampamento atual. No inverno, se mudam para uma cabana a cerca de 10 km de distância, para se abrigar melhor do frio.

    A degradação das pastagens, o sobrepastoreio, a mineração, a redução das fontes de água e eventos climáticos extremos ameaçam uma forma de vida que depende diretamente da saúde dos ecossistemas.

    Cerca de 70% a 76% do território da Mongólia sofre com a desertificação e a degradação do solo, segundo a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD). Isso equivale a aproximadamente 36 milhões de hectares.

    Batchuluun espera que as autoridades reunidas na capital Ulaanbaatar para a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17)  tragam soluções e esperança para os nômades e para a terra.

    “Achamos positivo que temas como seca e sobrepastoreio estejam sendo debatidos, pois são nossos maiores problemas. Queremos que cada um dos participantes compartilhe da ideia de respeitar a natureza e que isso seja ensinado para as futuras gerações desde os primeiros anos de vida”, diz. 


    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas.
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil
    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas.
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil
    Episódios recentes de seca prejudicaram a vegetação e fizeram ovelhas, cabras, cavalos e bois sofrerem com o calor. Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil

    A terra precisa descansar

    Durante muito tempo, as grandes extensões de pastagens foram utilizadas por nômades e outros criadores de gado sem limites formais bem definidos. Com o aumento dos rebanhos e outras pressões sobre o território, porém, a capacidade de suporte de algumas áreas começou a ser ultrapassada.

    Segundo o balanço oficial do governo, a Mongólia possuía cerca de 58 milhões de animais de rebanho em 2025, crescimento de 0,8% em relação a 2024. Esse número já chegou a ser de 71 milhões antes do dzud de 2023, quando milhões morreram pelo frio.

    O número é bem superior ao total da população humana. A Mongólia tem um total de 3 milhões e 400 mil pessoas, sendo que 700 mil, ou 30%, são nômades ou seminômades. É o 18º maior país do mundo em termos territoriais, mas é o menos povoado de todos.

    A resposta encontrada pela família de Batchuluun e os vizinhos para lidar com a degradação do solo foi deixar determinadas áreas sem uso. Para permitir que a natureza se recuperasse, decidiram não voltar durante dois anos em um dos locais onde costumavam manter os animais.

    Quando retornaram, viram que a vegetação havia voltado a crescer.

    Para reduzir a pressão sobre o território, muitos criadores passaram a buscar animais mais produtivos e a diversificar a renda, aproveitando melhor o leite, a carne, a lã e outros produtos.

    “Antes, era como se as pessoas quisessem aumentar cada vez mais o número de animais. Agora há uma preocupação maior em aproveitar melhor cada um deles”, relata Maamun. 

    Continuidade dos jovens


    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas. -  Oyunchimeg Shuurai, 53 anos
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil
    Rio de Janeiro (RJ), 23/08/2026 – Nas estepes da Mongólia, futuro da terra depende de nômades e cientistas. -  Oyunchimeg Shuurai, 53 anos
Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil

    Nômade Oyunchimeg Shuurai, 53 anos, defende uso equilibrado da terra Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil

    Para a mulher de Batchuluun, Oyunchimeg Shuurai, de 53 anos, esse aprendizado é uma forma de deixar condições melhores para novas gerações.

    “Se continuássemos apenas fazendo o que sempre fizemos, sem aprender outras formas de viver e produzir, isso não seria bom para o futuro”, diz Oyunchimeg.

    O nomadismo também depende de jovens interessados em seguir esse modo de vida. Oyunchimeg e Batchuluun têm quatro filhos. Eles não pretendem obrigá-los a se tornarem pastores, mas gostariam que pelo menos um deles escolhesse continuar a tradição.

    “Não pode ser uma obrigação”, diz Maamun. “Mas eu ficaria feliz se algum deles quisesse”.

    O futuro do nomadismo, para o casal, depende justamente de encontrar equilíbrio entre conhecimentos tradicionais e novos.

    A família usa painéis solares para produzir eletricidade e conservar alimentos. No inverno, utiliza esterco seco de animais como combustível para aquecimento, em vez de depender exclusivamente de fontes fósseis.

    A tecnologia, porém, não mudou o princípio central que orienta sua relação com a estepe: proteger a natureza não significa manter a terra intocada, mas saber quando e como utilizá-la, sem retirar dela mais do que ela pode oferecer.

    “Quando a única preocupação passa a ser o lucro, a terra acaba sendo destruída”, afirma Oyunchimeg.

     

    *O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática

    Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática

    Invisíveis a olho nu e espalhados em um sistema subterrâneo complexo, fungos são a aposta de um grupo de cientistas para restaurar terras degradadas, combater a desertificação e a crise climática.

    A possibilidade foi apresentada pelas pesquisadoras Toby Kiers e Burenjargal Otgonsuren, que lançaram o resultado de estudos recentes, durante encontro na Embaixada da França em Ulaanbaatar, Mongólia, no contexto da 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação (COP17).

    Conhecidos como fungos micorrízicos, por estabelecerem simbiose com raízes das plantas, esses organismos formam extensas redes no solo. Enquanto recebem carbono produzido pelas plantas durante a fotossíntese, ajudam-nas a obter água e nutrientes como fósforo e nitrogênio.
     


    Brasília (DF), 21/08/2026 - Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática
Foto: Tomas Munita/SPUN
    Brasília (DF), 21/08/2026 - Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática
Foto: Tomas Munita/SPUN
    Pesquisadoras usam fungos para recuperar solo e conter crise climática. Foto: Tomas Munita/SPUN

    As redes também contribuem para agregar as partículas do solo, reduzir a erosão e aumentar a resistência das plantas à seca e a outros estresses ambientais.

    A estratégia testada durante os estudos na Mongólia é simples: pequenas áreas de pastagem são cercadas para impedir temporariamente a entrada de animais e a ação humana.

    Essas áreas protegidas podem funcionar como refúgios de biodiversidade subterrânea e, no futuro, como fontes de fungos locais para projetos de restauração de terras degradadas, explicou a bióloga evolucionista Toby Kiers, diretora-executiva da Society for the Protection of Underground Networks (SPUN).

    “É como um banco de sementes, mas de fungos. Eles criam uma infraestrutura viva subterrânea que mantêm o solo unido. São como um sistema circulatório que conecta a vida acima e abaixo do solo.”

    Um solo mais estável e com uma comunidade microbiana saudável oferece melhores condições para o retorno das plantas, que, por sua vez, alimentam novamente os fungos com carbono.

    “É um ciclo. Você perde a diversidade de fungos, perde o carbono que está entrando no solo e perde parte da capacidade de manter o solo unido. Isso dificulta o crescimento das plantas e pode alimentar ainda mais a degradação”, disse Toby Kiers.

    Pastagens em recuperação

    A estratégia ainda está em fase experimental, com a liderança da pesquisadora local Burenjargal Otgonsuren. Ecóloga especializada em micorrizas (associação entre fungos e raízes das plantas), ela cresceu em uma região rural da província de Uvurkhangai e passou parte da infância acompanhando os avós, que eram pastores.

    A experiência também influenciou sua escolha profissional. Ela contou que o avô conhecia as plantas das pastagens e sabia identificar aquelas associadas à qualidade do campo ou utilizadas para fins medicinais. “Tornei-me uma ecóloga que pode ajudar a tratar o planeta.”

    A especialista instalou seis áreas cercadas em regiões de estepe e deserto para interromper temporariamente a pressão do pastoreio. Os primeiros resultados, obtidos em 2025, são promissores: a vegetação dentro das áreas protegidas já apresentava maior altura do que as plantas encontradas fora das cercas.

    A pesquisadora pretende acompanhar os experimentos por pelo menos três anos. Entre as possibilidades futuras está a criação de corredores ou áreas de refúgio mais amplas para conservar os fungos.

    Segundo Burenjargal Otgonsuren, pesquisas indicam que até 91% das pastagens degradadas da Mongólia poderiam ser recuperadas em algum grau. Para isso, porém, não basta replantar a vegetação.

    “Para recuperar a pastagem, a questão mais importante é ter um solo saudável. E, quando falamos de solo saudável, precisamos também proteger a biodiversidade que vive dentro dele.”

    Biodiversidade ainda desconhecida

    A dimensão da biodiversidade encontrada nas estepes mongóis surpreendeu as pesquisadoras. Nas amostras coletadas, cerca de 90% das sequências de DNA fúngico analisadas pertenciam a espécies ainda desconhecidas pela ciência.


    Brasília (DF), 21/08/2026 - Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática
Foto: Tomas Munita/SPUN
    Brasília (DF), 21/08/2026 - Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática
Foto: Tomas Munita/SPUN
    Fungos em microscópio. Foto: Tomas Munita/SPUN

    Foram identificadas 541 unidades taxonômicas associadas aos fungos micorrízicos apenas na região do Gobi. Parte desses organismos parece ser altamente adaptada às condições locais e pode não ocorrer em outras regiões do planeta.

    Isso torna a conservação dos fungos locais particularmente importante. A ideia não é simplesmente transportar fungos de outras regiões para áreas degradadas. “Precisamos proteger essas espécies endêmicas e reproduzi-las nós mesmos para depois utilizá-las”, afirmou Otgonsuren.

    Nova agenda de conservação

    Para Toby Kiers, a descoberta reforça a necessidade de mudar a forma como políticas ambientais tratam a biodiversidade. Em geral, esforços de conservação se concentram em plantas e animais visíveis, enquanto os organismos subterrâneos permanecem fora das áreas prioritárias.

    “Precisamos superar esse viés em favor do que está acima do solo e começar a proteger aquilo que não conseguimos ver.”

    Segundo a pesquisadora, cerca de 90% dos hotspots de biodiversidade microbiana identificados pela SPUN estão fora de áreas protegidas. Ela defendeu que fungos passem a ser incorporados às políticas de combate à desertificação e aos instrumentos de monitoramento da degradação da terra.

    A organização já trabalha com pesquisadores e comunidades locais em diferentes partes do mundo para mapear essas redes subterrâneas. A proposta é que o conhecimento produzido localmente seja incorporado a um atlas global e também às políticas públicas.

    “Estamos convidando as pessoas a integrar os fungos às políticas”, ressaltou. “Eles são componentes vitais de como monitoramos e combatemos a desertificação”, completou.

    *O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Indígenas cobram participação nas decisões da COP da Desertificação

    Indígenas cobram participação nas decisões da COP da Desertificação

    Indígenas de diferentes partes do mundo protestaram nesta quinta-feira (20) para serem incluídos nas negociações oficiais da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que está sendo realizada em Ulaanbaatar, capital da Mongólia.

    Eles consideram que o espaço específico criado este ano para se reunirem dentro do evento, chamado de Caucus Indígena e de Comunidades Tradicionais, é insuficiente, por ser “meramente simbólico” e não permitir uma participação “significativa, plena e efetiva”.


    Indígenas cobram participação nas decisões da COP da Desertificação. ( Oumarou Ibrahim Hindou, líder da Associação das Mulheres Indígenas Peules do Chade (AFPAT). Foto: Kiara worth
    Indígenas cobram participação nas decisões da COP da Desertificação. ( Oumarou Ibrahim Hindou, líder da Associação das Mulheres Indígenas Peules do Chade (AFPAT). Foto: Kiara worth
    Oumarou Ibrahim Hindou defende que participação indígena não pode ser só simbólica FotoKiara worth

    A líder da Associação das Mulheres Indígenas Peules do Chade (AFPAT, na sigla em francês), Oumarou Ibrahim Hindou, cobrou que os líderes dos governos presentes na conferência tenham mais respeito pelos povos tradicionais.

    “Nossa participação não pode ser meramente simbólica. Estamos aqui para reivindicar nossa terra e nossos territórios. Queremos que nossos conhecimentos e nossos direitos sejam reconhecidos. Não haverá COP sem as pessoas da terra. Nós estamos prontos para lutar”, disse Oumarou.

    Os manifestantes também exigiram que a agenda oficial da conferência volte a incluir temas sobre gênero e participação social. Ambos foram excluídos a pedido dos Estados Unidos. É preciso ter consenso entre as 197 partes da convenção para que o documento seja aprovado. Ele é estratégico por definir o que será negociado efetivamente pelos governos.

    A líder quechua da nação Kuntur Wanka, da região de Junín, no Perú, Sonia Astuhuamán Pardavé, defende que os indígenas são os principais guardiões da natureza e não podem ser excluídos de decisões que terão impacto direto sobre a vida deles.

    “Representamos comunidades inteiras e temos a chave para solucionar a crise da terra e a crise climática, porque nossos ancestrais também viveram tempos como estes e souberam encontrar soluções para construir uma vida em harmonia com a natureza”, disse Wanka.

    “O que será do planeta se deixarmos que destruam tudo? Quando não tivermos mais água e a terra estiver seca, como vão viver nossas crianças plantas e animais?”, concluiu.

    Declaração de Ulaanbaatar

    Também foi publicada nesta quinta-feira, em um evento paralelo, a Declaração de Ulaanbaatar: Apelo à Ação Global de Povos Pastoris e Indígenas. O documento destaca que estas comunidades são fundamentais para a conservação da biodiversidade, a segurança alimentar e a gestão sustentável de áreas de pastagem e rejeita a ideia de que o pastoreio seja uma atividade atrasada ou responsável pela desertificação.

    Entre as principais reivindicações está o reconhecimento dos direitos territoriais e da mobilidade, considerada não apenas uma característica cultural e econômica, mas também uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas.

    O documento afirma que essas populações estão entre as mais afetadas pelo aquecimento global, apesar de sua baixa contribuição para as emissões, e reivindica acesso direto a recursos para adaptação, preparação para secas e fortalecimento da resiliência.

    A declaração pede que governos protejam corredores de circulação de pessoas e animais, inclusive entre fronteiras, e garantam o acesso sazonal a pastagens, água e mercados. Também alerta para a perda e fragmentação de áreas de pastagem provocadas por mineração, energia, infraestrutura, agricultura, turismo e outros grandes empreendimentos.

    O texto ainda cobra mudanças no acesso a financiamento, com recursos diretos, flexíveis e sem intermediários quando as comunidades não os desejarem, além da criação de mecanismos específicos para iniciativas lideradas por povos pastoris. Entre as propostas estão fundos dedicados à restauração de pastagens, adaptação climática, conservação da biodiversidade, segurança alimentar, saúde e educação.

    Ao final, os participantes pedem que a Declaração de Ulaanbaatar seja incorporada aos resultados oficiais da COP17 e anunciam a realização de um novo encontro global de povos pastoris e indígenas em 2030.

    *O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Sociedade civil rejeita agenda excludente aprovada no início da COP17

    Sociedade civil rejeita agenda excludente aprovada no início da COP17

    Organizações sociais tiveram uma decepção logo nos primeiros dias da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), em Ulaanbaatar, Mongólia. A agenda oficial, que define o que os governos concordam em negociar durante o evento, excluiu temas de gênero e participação social.

    O Civil Society Organization (CSO) Panel, que reúne cerca de 1,2 mil organizações pelo mundo, rejeitou o documento e disse que a comunidade “está chocada e profundamente preocupada”. O entendimento é de que os governos sinalizaram preferir focar em aspectos técnicos e econômicos, e deixar de lado os impactos sociais da desertificação e da seca.

    O risco é que o resultado final da COP17 seja tecnocrático e distante da realidade das populações que mais sofrem com os problemas da terra.

    “Comunidades locais, povos indígenas, agricultores, pastores, mulheres, jovens, pesquisadores e organizações da sociedade civil trazem conhecimento, experiência e soluções dos territórios onde a degradação do solo, a desertificação e a seca são enfrentadas diariamente”, informa a nota do CSO Panel.

    As organizações insistiram que as decisões no evento precisam ser coletivas: políticos, cientistas e empresas não podem enfrentar sozinhos problemas que afetam milhões de pessoas no planeta.

    Terra, clima e biodiversidade

    O texto oficial também não prevê processos para integrar melhor as três convenções das Nações Unidas sobre meio ambiente, a da Terra (UNCCD), da Biodiversidade (CBD) e do Clima (UNFCCC). Esse é um dos pontos centrais defendidos por especialistas para torná-las mais efetivas.

    As três convenções nasceram a partir da Rio 92, evento que deu origem às discussões e tratados modernos de meio ambiente e clima. No ano passado, durante a 30ª Conferência Sobre Mudanças Climáticas (COP30), líderes das três convenções lançaram a Declaração Conjunta de Belém sobre as Convenções do Rio (Belem Joint Statement on the Rio Conventions).

    O documento destacou que as crises de clima, biodiversidade e degradação do solo estão interligadas e que tratar esses temas de forma isolada prejudica o desenvolvimento sustentável e a eficácia global das medidas de proteção ambiental.

    Cobertura na Mongólia

    A Agência Brasil acompanha a COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia. A viagem é uma parceria com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), que selecionou seis repórteres de diferentes continentes com uma bolsa de jornalismo para cobrir a conferência.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original