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  • Produções com artistas negros ganham espaço, mas desigualdade resiste

    Produções com artistas negros ganham espaço, mas desigualdade resiste

    Além do filme Feito Pipa, do diretor Allan Deberton, escolhido para representar o Brasil na busca por uma indicação ao Oscar no ano que vem, outros dois longas de narrativas negras faziam parte da lista de seis obras pré-selecionadas. 

    Os outros dois filmes da lista eram Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins, e Nosso Segredo, de Grace Passô, ambos diretores negros. 

    “São histórias que emocionam, desafiam convenções e conquistam espaço nos maiores palcos do cinema mundial”, afirma a presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan), Tatiana Carvalho.

    A par do reconhecimento, a representante da entidade destaca que o espaço para a produção de artistas não-brancos ainda está muito aquém do que deveria ser para um país de maioria negra. Tatiana Carvalho, que também é pesquisadora do tema, defende que é necessário que haja mais justiça no apoio para os realizadores. 

    Carta

    Nesta semana, a associação, que é apartidária, divulgou uma carta voltada para o setor e aos candidatos nas eleições deste ano na qual defende maior presença e permanência de profissionais de narrativas negras no mercado e no contexto da produção.

    Segundo a carta, continua desproporcional a participação de pessoas negras no acesso aos trabalhos no setor e, sobretudo, no acesso às maiores fatias do fomento público. Na TV aberta, são atualmente 65% de pessoas brancas e 32,6% de pessoas pretas e pardas com registros de emprego. 

    Na produção cinematográfica, são 69,6% de pessoas brancas e 29,3% de negras, sendo que as mulheres ganham menos. Um dos dados trazidos é que 94% dos filmes que receberam recursos federais foram dirigidos por pessoas brancas. 

    Salário menor

    A associação também argumenta que profissionais negros estão concentrados nas funções técnicas e mais sujeitos à menor remuneração, à informalidade e à menor proteção trabalhista. Por isso, a associação defende mecanismos de diminuição da desigualdade racial e de gênero nas equipes para a composição de equipes.

    “A carta propõe alterações e melhorias no que já existe de política pública. Cinema negro é cinema brasileiro. Defendemos políticas afirmativas do setor e uma perspectiva menos excludente”, argumenta. 

    Ela diz que houve avanços com a implementação da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, ambas de financiamento para a arte brasileira. Levantamento da entidade aponta que 58% dos festivais com foco em obras dirigidas por profissionais negras e realizadores negros tiveram participação direta desses incentivos no ano passado.

    O documento, que defende a realização de festivais de filmes com esse recorte racial, aponta que 83% das obras audiovisuais dirigidas por pessoas negras no Brasil foram produzidas após 2010.

    Ela avalia que a organização da cultura no país melhorou com a reativação do Conselho Superior de Cinema e com o Comitê Gestor do Fundo Setorial Audiovisual Ampliação de público. Além disso, a maior exposição dos filmes brasileiros em eventos internacionais, com prêmios como o Oscar, tem ajudado a gerar formação de público. 

    Outra iniciativa que a pesquisadora valoriza é a criação do Tela Brasil, plataforma gratuita de filmes brasileiros. 

    Tatiana Carvalho explica que o Brasil não tem legislação de proteção do cinema local, como os Estados Unidos. “Quando a gente fala em defender 20% de cota de tela nos cinemas, há uma gritaria falando que é censura de cinema internacional”.

    Para ela, a legislação é “muito tímida” em relação à proteção do cinema brasileiro para o público. Ela acredita que Senado e Câmara precisam elaborar leis mais fortes para proteger o audiovisual. “São 200 filmes por ano e a população brasileira não tem acesso a isso”.

    Brancos na direção

    Dos filmes com mais de R$ 5 milhões de verba pública, mais de 90% deles são dirigidos por pessoas brancas, lamenta a presidente da associação. “Isso indica o que majoritariamente a população brasileira está assistindo”. 

    A carta da associação defende a ampliação das ações afirmativas. “A gente desenvolveu um conceito que chama empresa vocacionada para reparação histórica, que são as que têm metade ou mais do quadro societário de pessoas negras”.

    Atualmente, a cota de produção é de 25% de verbas com ação afirmativa no mínimo (sendo 15% para negros, 5% para indígenas e 5% para pessoas com deficiência).

    “A gente começou a receber cotidianamente reclamações de má aplicação da Lei Paulo Gustavo”, diz Tatiana Carvalho. 

    Ela explica que houve relatos de fraudes. Pessoas negras assinavam cartas de anuência e, quando o dinheiro chegava na produtora, elas eram descartadas do processo. Outra forma é de pessoas se declararam negros sem serem. 

    A entidade defende bancas de heteroidentificação, como ocorrem nas cotas estudantis universitárias. Ao mesmo tempo, Tatiana Carvalho defende que é fundamental que a legislação estimule mais produções cinematográficas negras em sala de aula. 

    “Isso é o que há de mais importante. Vai ao encontro de outra legislação que determina o ensino de cultura africana brasileira e história, além de cultura indígena no contexto da educação básica”.

    Exibir filmes em sala de aula pode ser importante para as ações de contraturno na escola integral e para a integração das escolas com as comunidades nos finais de semana. Formar uma nova geração de público de produções audiovisuais e que conheçam mais do próprio país equivale, segundo avalia a pesquisadora, a um prêmio de valor imensurável.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original

  • Filme Feito Pipa é escolhido para representar Brasil no Oscar 2027

    Filme Feito Pipa é escolhido para representar Brasil no Oscar 2027

    O filme Feito Pipa, do diretor Allan Deberton, foi escolhido para disputar uma indicação de Melhor Filme Internacional no Oscar 2027. O anúncio foi feito nesta quarta-feira (16) pela Academia Brasileira de Cinema e Artes Visuais, responsável por selecionar o título que representa o país na premiação. 

    A obra foi escolhida entre os seis longas-metragens pré-selecionados para representar o Brasil na disputa, anunciados no último dia 6 de setembro. Ao todo, 15 longas foram inscritos e habilitados para concorrer à vaga brasileira. 

    O longa-metragem foi rodado em Quixadá, no sertão do Ceará. O enredo acompanha a trajetória de Gugu, papel de Yuri Gomes, um menino de 11 anos apaixonado por futebol, que mora com a avó, Dilma, interpretada pela atriz Teca Pereira.

    Quando a saúde dela se fragiliza, ele tenta esconder a situação para não ter que se mudar para a casa do pai, Batista, personagem de Lázaro Ramos, em Brasília.

    O filme foi o mais premiado da edição deste ano no Festival de Gramado, com os prêmios de:

    • Melhor Direção, 
    • Melhor Atriz para Teca Pereira, 
    • Melhor Ator Coadjuvante para Lázaro Ramos e 
    • Melhor Filme pelo Júri Popular, 
    • Menção Honrosa para Yuri Gomes, que interpreta o protagonista da história.

    “A emoção é gigante, porque dentro de tantos filmes bons que a gente teve esse ano, um monte de filme legal, um monte de trabalho rico, valioso, precioso, o Feito Pipa foi selecionado para tentar esse caminho, que é um caminho que, na verdade, começa em casa, de a gente mesmo valorizar o nosso cinema”, comemorou o ator Lázaro Ramos em uma rede social. 

    “Acho que é um filme que o Brasil precisa e merece pela linguagem, um jeito de fazer cinema, que só a gente aqui no Brasil sabe fazer, pelos temas que trata, pelas atuações, pela direção, pelo roteiro”, completou o ator. 

    A presidente da Comissão de Seleção, Clélia Bessa, também ressaltou a linguagem sensível do filme como um elemento forte na escolha. 

    “O filme Feito Pipa, de Allan Deberton, tem uma narrativa sensível que comunica universalmente e ao mesmo tempo traz uma forte identidade brasileira a partir de uma cidade do interior do Ceará. É sobre família, cumplicidade entre avó e neto, infância, finitude e já foi premiado em festivais internacionais importantes”, disse Clélia Bessa.

    A estreia no Brasil está marcada para 5 de novembro, mas antes o filme será exibido no Festival do Rio, em outubro.

    O Brasil já foi finalista em Melhor Filme Internacional no Oscar em seis ocasiões: as mais recentes, com os filmes O Agente Secreto, do diretor Kleber Mendonça Filho e Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, que acabou levando a estatueta pela primeira vez para o Brasil.

    A short list oficial de Melhor Filme Internacional para o Oscar 2027, com os 15 longas em língua não inglesa pré-selecionados, será divulgada em dezembro pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo prêmio. Já o anúncio dos cinco indicados oficiais para a categoria está previsto para 21 de janeiro do ano que vem.

    Fonte: Agência Brasil ? Leia a notícia original